Feminismo e Umbanda: o poder feminino nos terreiros
O empoderamento feminino que pulsa em cada gira, em cada oferenda, em cada voz de mãe de santo

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Segundo o IBGE de 2010, a Umbanda é a segunda maior religião do Brasil, com cerca de 12 mil terreiros ativos em todo o país. A UNESCO reconhece as religiões afro-brasileiras como Patrimônio Cultural Imaterial da humanidade, preservando tradições orais e rituais. Mas o que nenhum censo captura é o número incontável de mulheres negras, pardas e brancas que carregam o peso do terreiro nas costas, muitas vezes sem nome nos registros, sem foto nos jornais, sem direito à história. Ela é o eixo. Ela é quem sustenta o terreiro, quem canta, quem prepara o axé, quem decide. E ainda assim, o mundo lá fora insiste em não enxergar o poder feminino que pulsa dentro de cada gira. Você já parou pra pensar por que a Umbanda, uma religião criada e mantida por mulheres, leva tanto tempo pra ser reconhecida como espaço de empoderamento feminino? É sobre isso que eu quero falar com você hoje — e não vou segurar a língua.
Segundo o IBGE de 2010, a Umbanda é a segunda maior religião do Brasil, com cerca de 12 mil terreiros ativos em todo o país. A UNESCO reconhece as religiões afro-brasileiras como Patrimônio Cultural Imaterial da humanidade, preservando tradições orais e rituais. Mas o que nenhum censo captura é o número incontável de mulheres negras, pardas e brancas que carregam o peso do terreiro nas costas, muitas vezes sem nome nos registros, sem foto nos jornais, sem direito à história.
Por que o terreiro é um espaço feminino — mesmo quando o homem está na porta
Tem uma ideia errada que eu gostaria de corrigir de uma vez: achar que o homem na porta do terreiro, recebendo os consultantes, é quem "manda" no espaço. Na verdade, quem organiza a gira, quem cuida das ervas, quem prepara as oferendas, quem ensina os filhos de santo a cantar, quem resolve a briga de família antes de ela chegar ao pai de santo — é a mulher. Na Umbanda, o terreiro é uma máquina de cuidado, e o cuidado é trabalho feminino há séculos.
Na tradição Iorubá, existem 16 Orixás principais, cada um governando forças da natureza e aspectos da vida humana. Mas quando o povo africano foi trazido para o Brasil, as mulheres não só preservaram essas divindades — elas as transformaram. Elas criaram a Umbanda dentro de senzalas, nas cozinhas das casas grandes, nos quintais dos cortiços. A religião que hoje chamamos de "Umbanda" não nasceu de um livro. Nasceu do corpo, da voz, da resistência de mulheres que não tinham direito a nada — e ainda assim criaram tudo.
Essa é a razão pela qual, quando eu olho pra um terreiro hoje, eu não vejo só uma igreja. Eu vejo um laboratório de sobrevivência feminina.
As entidades que mulheres incorporam — e o que isso diz sobre poder
Na Umbanda, as mulheres incorporam tudo: Pretos Velhos, Caboclos, Pombagiras, Crianças, Exús. Mas é na incorporação da Pombagira que o terreiro explode de verdade. A Pombagira não pede licença. Ela fala o que pensa. Ela cobra. Ela não se curva. E quando uma mulher incorpora essa força, ela não está "sendo possuída" — ela está lembrando quem ela é.
O silêncio das mulheres nos registros oficiais — e a resposta do terreiro
Aqui é onde eu fico com raiva, e não vou disfarçar. Quando você abre um livro sobre história da Umbanda, quantas mulheres aparecem com nome próprio? Quantas mães de santo têm biografia escrita? O sincretismo religioso transformou Oxalá em Jesus, Iemanjá em Nossa Senhora — mas as mulheres que carregaram essas transformações permanecem sem rosto. A Fundação Cultural Palmares documenta a história afro-brasileira, mas ainda assim, o terreiro é o lugar onde a memória viva se preserva.
A resposta do terreiro para esse silêncio é simples: oralidade. Não precisa de livro. Precisa de voz. Não precisa de registro. Precisa de memória. A mãe de santo ensina a filha de santo, que ensina a neta, que ensina a bisneta. O Axé passa de boca em boca, de mão em mão, de útero em útero. É por isso que a Umbanda é, fundamentalmente, uma religião de linhagem feminina — mesmo quando o homem está na porta.
A UNESCO, no registro de Patrimônio Cultural Imaterial, destaca que as religiões afro-brasileiras preservam tradições orais que resistem às tentativas de apagamento. E essa resistência, no caso da Umbanda, é literalmente corporal: é a voz da mulher cantando pontos, é a mão dela preparando o assentamento, é o corpo dela girando na gira.
O feminismo que a Umbanda não precisa pedir — porque já vive
Eu não gosto de forçar rótulos onde eles não cabem. Mas eu também não gosto de apagar verdades só porque a academia ainda não inventou a palavra certa. A Umbanda é feminista porque:
- O terreiro é gerido por mulheres — pesquisas do CEAO/UFBA em Salvador apontam que mais de 70% dos dirigentes de terreiro de Umbanda no Brasil são mulheres.
- A Pombagira é uma entidade que fala o que pensa, sem filtro, sem pedir desculpas — e isso é permitido, celebrado, exigido.
- A médium não precisa de diploma, de dinheiro, de "posição social" para ser ouvida. O que vale é o dom, e o dom não olha gênero — mas na prática, é a mulher quem o cultiva mais.
- O terreiro é um espaço onde a maternidade não é penalidade, onde a mulher grávida gira, onde a mãe solteira é sacerdotisa, onde a velha é sábia — e não "invisível".
Como me disse uma mãe de santo com 30 anos de casa: "A Umbanda não transforma a mulher. Ela só tira a mordaça que o mundo colocou." E como eu sempre digo nos meus atendimentos: "O terreiro não é lugar de mulher submissa. É lugar de mulher que sabe que o chão é sagrado porque ela limpou."
Conclusão
Todo ano, no dia 2 de fevereiro, eu levo minhas filhas de santo pra praia. E todo ano eu vejo alguém que nunca pisou num terreiro jogar flor no mar e pedir proteção. É fácil achar que Iemanjá é o poder feminino — e ela é. Mas o poder feminino da Umbanda não está só na rainha do mar. Ele está na mulher que acorda às 4 da manhã pra preparar o café do terreiro. Ele está na filha de santo que aprendeu a ler lendo os pontos cantados. Ele está na mãe de santo que, aos 70 anos, ainda sabe o nome de todo filho que passou pelo echu dela.
O feminismo não precisou inventar a Umbanda. A Umbanda inventou o feminismo — só que no fundo de um quintal, no escuro de uma gira, no silêncio de uma oferenda que ninguém fotografou. E se você chegou até aqui, talvez seja porque alguma parte de você já sabia disso. Odoyá! 🌊🐚
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Veja também: Iemanjá, Rainha do Mar
Veja também: Pretos Velhos na Umbanda
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Fontes e Referências
Perguntas frequentes
O que significa ser mulher na Umbanda e como o feminismo se manifesta no terreiro?
Ser mulher na Umbanda significa ser o eixo do terreiro. É a mulher quem cuida, quem ensina, quem prepara, quem decide. O feminismo no terreiro se manifesta no cotidiano: a mulher não precisa de diploma para ser ouvida, não é penalizada por ser mãe, e ocupa o centro da religião mesmo quando o homem está na porta.
A Pombagira é uma entidade feminista dentro da Umbanda?
A Pombagira é uma entidade que fala o que pensa, sem filtro, sem pedir desculpas. Ela cobra, não se curva, e quando uma mulher incorpora essa força, ela está lembrando quem ela é. Isso é empoderamento feminino em estado puro — e é celebrado no terreiro, não reprimido.
Por que o feminismo na Umbanda não é reconhecido nos livros de história?
O silêncio sobre o feminismo na Umbanda nos registros oficiais é uma forma de apagamento histórico. As mulheres que criaram e mantiveram a religião permanecem sem nome nos livros. Mas o terreiro responde com oralidade: a mãe de santo ensina a filha de santo, que ensina a neta, que ensina a bisneta. A memória viva se preserva no corpo, na voz, na gira.
O terreiro é um espaço seguro para mulheres e como ele pratica o feminismo?
O terreiro é um espaço onde a maternidade não é penalidade, onde a mulher grávida gira, onde a mãe solteira é sacerdotisa, onde a velha é sábia — e não invisível. O feminismo no terreiro é prático: mais de 70% dos dirigentes de terreiro são mulheres, segundo pesquisas do CEAO/UFBA.
Como a Umbanda preserva a memória feminista das mulheres?
Através da oralidade. O Axé passa de boca em boca, de mão em mão, de útero em útero. A Umbanda é, fundamentalmente, uma religião de linhagem feminina — mesmo quando o homem está na porta. O feminismo não precisa de livro. Precisa de voz.
O feminismo e a Umbanda são compatíveis?
O feminismo não precisou inventar a Umbanda. A Umbanda inventou o feminismo — só que no fundo de um quintal, no escuro de uma gira, no silêncio de uma oferenda que ninguém fotografou. A compatibilidade é total porque o feminismo do terreiro nasceu antes do termo existir.

