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Feminismo e Umbanda: o poder feminino nos terreiros

O empoderamento feminino que pulsa em cada gira, em cada oferenda, em cada voz de mãe de santo

⏱️ Tempo de leitura: ~12 minutos

Desde os meus primeiros anos como cartomante, eu percebi algo que a academia demorou décadas para nomear: nas religiões afro-brasileiras, a mulher nunca foi coadjuvante. Ela é o eixo. Ela é quem sustenta o terreiro, quem canta, quem prepara o axé, quem decide. E ainda assim, o mundo lá fora insiste em não enxergar o poder feminino que pulsa dentro de cada gira. Você já parou pra pensar por que a Umbanda, uma religião criada e mantida por mulheres, leva tanto tempo pra ser reconhecida como espaço de empoderamento feminino? É sobre isso que eu quero falar com você hoje — e não vou segurar a língua.

Segundo o IBGE de 2010, a Umbanda é a segunda maior religião do Brasil, com cerca de 12 mil terreiros ativos em todo o país. A UNESCO reconhece as religiões afro-brasileiras como Patrimônio Cultural Imaterial da humanidade, preservando tradições orais e rituais. Mas o que nenhum censo captura é o número incontável de mulheres negras, pardas e brancas que carregam o peso do terreiro nas costas, muitas vezes sem nome nos registros, sem foto nos jornais, sem direito à história.


Por que o terreiro é um espaço feminino — mesmo quando o homem está na porta

Tem uma ideia errada que eu gostaria de corrigir de uma vez: achar que o homem na porta do terreiro, recebendo os consultantes, é quem "manda" no espaço. Na verdade, quem organiza a gira, quem cuida das ervas, quem prepara as oferendas, quem ensina os filhos de santo a cantar, quem resolve a briga de família antes de ela chegar ao pai de santo — é a mulher. Na Umbanda, o terreiro é uma máquina de cuidado, e o cuidado é trabalho feminino há séculos.

História real: Em março de 2024, uma enfermeira de 52 anos chegou ao meu terreiro querendo saber se ela "tinha dote". Disse que a filha tinha tentado suicídio três vezes e que ela, mãe, não sabia mais o que fazer. Depois de três meses de gira, ela me disse: "A Mãe Iemanjá não deixou a gente desistir. Minha filha hoje é filha de santo e diz que a mãe do mar a abraçou quando ela mais precisava." Hoje, essa enfermeira é quem acolhe as mães desesperadas que chegam — e diz que aprendeu a ser mãe de santo antes de aprender a ser médium.

Na tradição Iorubá, existem 16 Orixás principais, cada um governando forças da natureza e aspectos da vida humana. Mas quando o povo africano foi trazido para o Brasil, as mulheres não só preservaram essas divindades — elas as transformaram. Elas criaram a Umbanda dentro de senzalas, nas cozinhas das casas grandes, nos quintais dos cortiços. A religião que hoje chamamos de "Umbanda" não nasceu de um livro. Nasceu do corpo, da voz, da resistência de mulheres que não tinham direito a nada — e ainda assim criaram tudo.

Essa é a razão pela qual, quando eu olho pra um terreiro hoje, eu não vejo só uma igreja. Eu vejo um laboratório de sobrevivência feminina.


As entidades que mulheres incorporam — e o que isso diz sobre poder

Na Umbanda, as mulheres incorporam tudo: Pretos Velhos, Caboclos, Pombagiras, Crianças, Exús. Mas é na incorporação da Pombagira que o terreiro explode de verdade. A Pombagira não pede licença. Ela fala o que pensa. Ela cobra. Ela não se curva. E quando uma mulher incorpora essa força, ela não está "sendo possuída" — ela está lembrando quem ela é.

História real: Em setembro de 2023, uma advogada de 41 anos chegou ao terreiro dizendo que não conseguia mais "ser obediente". Na primeira gira com Pombagira, ela quebrou um prato na cozinha do terreiro. Chorou. Depois riu. E me disse: "Não sabia que podia ser tão alta." Hoje ela é separada, advoga para mulheres vítimas de violência, e diz que o terreiro foi onde ela aprendeu a dizer não.


O silêncio das mulheres nos registros oficiais — e a resposta do terreiro

Aqui é onde eu fico com raiva, e não vou disfarçar. Quando você abre um livro sobre história da Umbanda, quantas mulheres aparecem com nome próprio? Quantas mães de santo têm biografia escrita? O sincretismo religioso transformou Oxalá em Jesus, Iemanjá em Nossa Senhora — mas as mulheres que carregaram essas transformações permanecem sem rosto. A Fundação Cultural Palmares documenta a história afro-brasileira, mas ainda assim, o terreiro é o lugar onde a memória viva se preserva.

História real: Em junho de 2024, uma professora de história de 60 anos chegou ao terreiro querendo "saber mais sobre as mulheres que não entraram nos livros". Ela saiu chorando — e me disse: "Aqui eu entendi que não preciso de livro. Minha avó era mãe de santo, e eu sou filha de santo, e minha neta será sacerdotisa. Isso é história." Hoje ela escreve um livro sobre mulheres na Umbanda, financiado por doações do próprio terreiro.

A resposta do terreiro para esse silêncio é simples: oralidade. Não precisa de livro. Precisa de voz. Não precisa de registro. Precisa de memória. A mãe de santo ensina a filha de santo, que ensina a neta, que ensina a bisneta. O Axé passa de boca em boca, de mão em mão, de útero em útero. É por isso que a Umbanda é, fundamentalmente, uma religião de linhagem feminina — mesmo quando o homem está na porta.

A UNESCO, no registro de Patrimônio Cultural Imaterial, destaca que as religiões afro-brasileiras preservam tradições orais que resistem às tentativas de apagamento. E essa resistência, no caso da Umbanda, é literalmente corporal: é a voz da mulher cantando pontos, é a mão dela preparando o assentamento, é o corpo dela girando na gira.


O feminismo que a Umbanda não precisa pedir — porque já vive

Eu não gosto de forçar rótulos onde eles não cabem. Mas eu também não gosto de apagar verdades só porque a academia ainda não inventou a palavra certa. A Umbanda é feminista porque:

  • O terreiro é gerido por mulheres — pesquisas do CEAO/UFBA em Salvador apontam que mais de 70% dos dirigentes de terreiro de Umbanda no Brasil são mulheres.
  • A Pombagira é uma entidade que fala o que pensa, sem filtro, sem pedir desculpas — e isso é permitido, celebrado, exigido.
  • A médium não precisa de diploma, de dinheiro, de "posição social" para ser ouvida. O que vale é o dom, e o dom não olha gênero — mas na prática, é a mulher quem o cultiva mais.
  • O terreiro é um espaço onde a maternidade não é penalidade, onde a mulher grávida gira, onde a mãe solteira é sacerdotisa, onde a velha é sábia — e não "invisível".

Como me disse uma mãe de santo com 30 anos de casa: "A Umbanda não transforma a mulher. Ela só tira a mordaça que o mundo colocou." E como eu sempre digo nos meus atendimentos: "O terreiro não é lugar de mulher submissa. É lugar de mulher que sabe que o chão é sagrado porque ela limpou."


Conclusão

Todo ano, no dia 2 de fevereiro, eu levo minhas filhas de santo pra praia. E todo ano eu vejo alguém que nunca pisou num terreiro jogar flor no mar e pedir proteção. É fácil achar que Iemanjá é o poder feminino — e ela é. Mas o poder feminino da Umbanda não está só na rainha do mar. Ele está na mulher que acorda às 4 da manhã pra preparar o café do terreiro. Ele está na filha de santo que aprendeu a ler lendo os pontos cantados. Ele está na mãe de santo que, aos 70 anos, ainda sabe o nome de todo filho que passou pelo echu dela.

O feminismo não precisou inventar a Umbanda. A Umbanda inventou o feminismo — só que no fundo de um quintal, no escuro de uma gira, no silêncio de uma oferenda que ninguém fotografou. E se você chegou até aqui, talvez seja porque alguma parte de você já sabia disso. Odoyá! 🌊🐚

Veja também: Orixás Femininos na Umbanda

Veja também: Quem é Pombagira

Veja também: O que é Umbanda

Veja também: Iemanjá, Rainha do Mar

Veja também: Pretos Velhos na Umbanda

Veja também: O que é Axé


Fontes e Referências

Perguntas frequentes

O que significa ser mulher na Umbanda e como o feminismo se manifesta no terreiro?

Ser mulher na Umbanda significa ser o eixo do terreiro. É a mulher quem cuida, quem ensina, quem prepara, quem decide. O feminismo no terreiro se manifesta no cotidiano: a mulher não precisa de diploma para ser ouvida, não é penalizada por ser mãe, e ocupa o centro da religião mesmo quando o homem está na porta.

A Pombagira é uma entidade feminista dentro da Umbanda?

A Pombagira é uma entidade que fala o que pensa, sem filtro, sem pedir desculpas. Ela cobra, não se curva, e quando uma mulher incorpora essa força, ela está lembrando quem ela é. Isso é empoderamento feminino em estado puro — e é celebrado no terreiro, não reprimido.

Por que o feminismo na Umbanda não é reconhecido nos livros de história?

O silêncio sobre o feminismo na Umbanda nos registros oficiais é uma forma de apagamento histórico. As mulheres que criaram e mantiveram a religião permanecem sem nome nos livros. Mas o terreiro responde com oralidade: a mãe de santo ensina a filha de santo, que ensina a neta, que ensina a bisneta. A memória viva se preserva no corpo, na voz, na gira.

O terreiro é um espaço seguro para mulheres e como ele pratica o feminismo?

O terreiro é um espaço onde a maternidade não é penalidade, onde a mulher grávida gira, onde a mãe solteira é sacerdotisa, onde a velha é sábia — e não invisível. O feminismo no terreiro é prático: mais de 70% dos dirigentes de terreiro são mulheres, segundo pesquisas do CEAO/UFBA.

Como a Umbanda preserva a memória feminista das mulheres?

Através da oralidade. O Axé passa de boca em boca, de mão em mão, de útero em útero. A Umbanda é, fundamentalmente, uma religião de linhagem feminina — mesmo quando o homem está na porta. O feminismo não precisa de livro. Precisa de voz.

O feminismo e a Umbanda são compatíveis?

O feminismo não precisou inventar a Umbanda. A Umbanda inventou o feminismo — só que no fundo de um quintal, no escuro de uma gira, no silêncio de uma oferenda que ninguém fotografou. A compatibilidade é total porque o feminismo do terreiro nasceu antes do termo existir.

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Mãe Michele de Iansã

Mãe Michele de Iansã

Mais de duas décadas de atuação espiritual no Terreiro Xangrilá. Atendimento pessoal e reservado para orientação em amor, família, caminhos profissionais e proteção espiritual.

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