O que é Gira: os rituais de incorporação na Umbanda
Entenda o significado, a estrutura e a importância dos rituais de incorporação nos terreiros de Umbanda

O que é Gira: os rituais de incorporação na Umbanda
A gira é o coração pulsante da Umbanda. É no momento da gira que o sagrado e o profano se encontram, que a espiritualidade deixa de ser conceito abstrato e se torna experiência viva, palpável, transformadora. Para quem está dentro do terreiro, a gira é o espaço-tempo onde os mistérios se revelam. Para quem observa de fora, pode parecer um fenômeno incompreensível — mas basta uma única participação consciente para compreender que ali acontece algo muito além do que os olhos conseguem capturar.
A palavra gira remete ao movimento, à roda, à circularidade. E é exatamente isso que acontece: energias, entidades, pessoas e intenções giram em torno de um eixo comum, criando um campo vibracional único. A gira é, ao mesmo tempo, ritual, celebração, cura e comunhão. Não existe Umbanda sem gira, assim como não existe rio sem água.
Origem e significado da palavra
O termo gira tem raízes profundas na cultura afro-brasileira. Deriva do conceito de movimento circular, de roda, de ciclo — algo que se eterniza ao se repetir. Nas religiões de matriz africana, o movimento circular é sagrado: ele representa a eternidade, a continuidade da vida, a ideia de que tudo que começa também retorna.
Na Umbanda, a palavra ganhou um significado específico. A gira é o momento ritual em que os médiuns se incorporam com as entidades espirituais — os Orixás, os Pretos Velhos, os Caboclos, as Crianças, os Exus e Pombagiras — para realizar o atendimento aos irmãos de fé e a todos que buscam auxílio espiritual. É um momento de transição entre o mundo físico e o plano espiritual, mediado pela mediunidade desenvolvida com disciplina, amor e responsabilidade.
"A gira é a roda que gira, mas quem gira somos nós mesmos em torno do bem maior."
A estrutura da gira de Umbanda
A organização da gira segue uma estrutura que pode variar de acordo com a tradição de cada terreiro, mas que geralmente contempla elementos fundamentais:
- Abertura: com reza, cantiga ou ponto de chamada
- Incorporação: os médiuns recebem as entidades
- Atendimento: consultas, passes, orientações e trabalhos espirituais
- Despedida: agradecimento e desincorporação
Preparação do espaço
Antes da gira começar, o espaço do terreiro é preparado com cuidado. O altar é arrumado, as guias (colares) são colocadas, as velas são acesas, o sagrado é invocado. O chão é passado com ervas como arruda e guiné, ou ainda com água de cascara sagrada ou bebidas específicas de acordo com a linha que vai girar.
A música é outro elemento essencial. Cada entidade tem seus pontos cantados, seus toques e seus ritmos. O som do atabaque, do agogô, do gonguê ou simplesmente das palmas e vozes dos presentes cria uma atmosfera que favorece a descida dos espíritos. A música na Umbanda não é mero acompanhamento — é vibração consciente, é chamado, é ponte.
O momento da incorporação
A incorporação é o fenômeno mediúnico central da gira. Não se trata de perda de consciência, mas de uma dádiva — o médium cede temporariamente seu corpo físico para que uma entidade espiritual possa se manifestar e realizar trabalho de auxílio à humanidade.
Como acontece
O médium, devidamente preparado, entra em estado de desejo e vibração compatível com a entidade. Isso pode acontecer de formas diferentes: alguns sentem um arrepio, outros uma pressão, um calor, um sono ou uma sensação de expansão. Cada médium tem sua forma particular de perceber a aproximação do espírito.
Já tive uma cliente que passou por algo parecido..
Quando a entidade se firma — processo chamado de assentamento — o médium passa a manifestar as características daquele espírito: a fala, os gestos, o olhar, as preferências, a sabedoria. É como se, por alguns instantes, outra personalidade ocupasse aquele corpo, mas sempre com um propósito claro: auxiliar.
Uma vez, uma sacerdotisa me disse algo que nunca esqueci: "Como dizia Zélio Fernandino: 'Umbanda é a religião do amor, da caridade e da fraternidade.'"
Diferentes formas de manifestação
Na gira, as entidades se apresentam de formas distintas:
- Pretos Velhos: calmos, humildes, falam devagar, cheiram a fumo de palha e café
- Caboclos: eretos, olhares penetrantes, falam com autoridade da mata e das ervas
- Crianças: brincalhonas, travessas, trazem leveza e inocência
- Exus e Pombagiras: rápidos, intensos, falam direto, às vezes com dor e urgência
- Orixás: majestosos, movimentos amplos, trazem força e equilíbrio elemental
O atendimento: a essência da gira
Se a incorporação é o meio, o atendimento é o fim. Não existe gira legítima sem serviço ao próximo. As entidades que descem na Umbanda não vêm para performar, impressionar ou demonstrar poder — vêm para ouvir, orientar, confortar, curar e, quando necessário, corrigir.
O que acontece no atendimento
O irmão que busca o terreiro senta-se frente à entidade e expõe sua demanda. Pode ser uma doença física, um problema sentimental, uma dificuldade financeira, uma questão espiritual ou simplesmente uma necessidade de acolhimento. A entidade, com sua visão ampliada e sabedoria acumulada em muitas encarnações, oferece a orientação necessária.
O atendimento pode incluir:
- Consulta espiritual: diagnóstico da situação com clareza que muitas vezes surpreende
- Passes: imposição de mãos para harmonização energética e alívio imediato
- Orientação prática: conselhos sobre vida, relacionamentos, trabalho, saúde
- Trabalhos espirituais: quando necessário, a entidade pode indicar limpesa, amarração, desobsessão ou outros rituais específicos
- Prescrição de ervas, banhos ou rezas para serem feitos em casa.
"Não é a entidade que cura — é a fé do irmão que, ao encontrar o acolhimento, se abre para receber a luz."
A música e os pontos cantados
Não se pode falar de gira sem falar de música. Os pontos cantados são como chaves que abrem as portas do plano espiritual. Cada entidade responde a ritmos e letras específicos, e um ponto bem cantado pode facilitar a incorporação tanto quanto uma longa preparação.
As letras dos pontos geralmente contam histórias, reforçam lendas, ensinam valores ou simplesmente louvam a entidade. São orações cantadas, hinos de trabalho, cânticos de chamado. Quanto mais os presentes cantam com fé e atenção, mais forte fica o campo energético do terreiro.
A música na gira também tem uma função terapêutica para os assistentes. Cantar junto, bater palma, dançar levemente — tudo isso eleva a vibração do ambiente e contribui para que a energia da gira seja positiva, fluida e transformadora.
Regras e comportamento durante a gira
A gira é um espaço sagrado, e como tal, exige respeito e disciplina. Não se trata de teatro, espetáculo ou turismo religioso. Trata-se de um templo em funcionamento, onde espíritos elevados trabalham por amor à humanidade.
O que fazer
- Chegar com respeito e intenção clara
- Manter silêncio durante os atendimentos
- Cantar os pontos com fé, mesmo não sabendo a letra toda
- Agradecer ao final, independentemente de ter sido atendido ou não
- Vestir roupas limpas, adequadas, preferencialmente brancas ou claras
O que evitar
- Fotografar ou filmar sem permissão — a energia da gira é sagrada, não conteúdo
- Conversar alto durante os atendimentos
- Questionar ou testar a entidade — o atendimento não é para validar crenças
- Entrar ou sair do terreiro durante incorporações
- Levar bebidas alcoólicas ou estar sob efeito de substâncias
O desenvolvimento mediúnico
A capacidade de se incorporar na gira não é um dom ao acaso. Na Umbanda, a mediunidade é entendida como uma faculdade que pode ser desenvolvida com estudo, disciplina e evolução moral. O médium passa por um processo de preparação que pode durar meses ou anos, incluindo:
- Estudo doutrinário: compreensão da lei de causa e efeito, reencarnação, evolução espiritual
- Desobsessão: tratamento de questões espirituais próprias que possam interferir
- Exercícios de passividade: técnicas para desenvolver a capacidade de recepção
- Evangelização no lar: prática de oração, caridade e transformação íntima
- Trabalho no terreiro: auxílio em tarefas simples antes de incorporar
"O médium é um instrumento. Quanto mais limpo, mais afinado, mais bela será a música que por ele passa."
Tipos de gira na Umbanda
Existem diferentes modalidades de gira, cada uma com suas características:
- Gira pública: aberta a todos, realizada em dias fixos, com atendimento geral
- Gira de desenvolvimento: voltada ao aprimoramento dos médiuns, geralmente fechada
- Gira de trabalho: focada em casos específicos, demandas urgentes ou trabalhos espirituais complexos
- Gira festiva: comemorações de datas especiais, aniversários de entidades ou fundadores
- Gira de gira: um tipo mais antigo, de rodagem mais intensa, presente em algumas tradições
A transformação pessoal
Quem frequenta a gira com regularidade e receptividade passa por uma transformação. Não é algo imediato ou mágico — é um processo de despertar lento, de abertura de consciência, de reconexão com algo maior.
Muitos irmãos relatam que, após começarem a frequentar as giras, suas vidas mudaram. Não porque alguma entidade "deu sorte", mas porque o contato com aquela energia de amor, trabalho e fé transforma quem está aberto a receber.
A gira é, no fundo, um espelho: mostra quem somos, onde estamos, o que precisamos melhorar. E faz isso com amor, mas com firmeza. A entidade não diz o que queremos ouvir — diz o que precisamos ouvir.
Umbanda é a religião do povo.
Pomba Gira não é prostituta. É a mulher que se recusou a ser esquecida.
Conclusão
A gira é o ritual mais importante da Umbanda. É ali que a teoria vira prática, que a fé se torna experiência, que o céu desce para beijar a terra. Entender a gira é entender a essência da Umbanda: um caminho de luz, de serviço, de amor ao próximo e de evolução consciente.
Se você nunca participou de uma, considere esta um convite — não de conversão, mas de conhecimento. Vá com respeito, com o coração aberto e sem expectativas. A Umbanda recebe quem chega com simplicidade e sinceridade. E na roda da gira, todos — vivos e espíritos — somos irmãos girando juntos em busca do bem maior.
Saravá!
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A Umbanda é a segunda maior religião do Brasil em número de adeptos, segundo o IBGE de 2010.
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Aprofunde-se na história das religiões afro-brasileiras através do IPHAN e da Fundação Cultural Palmares.
Perguntas frequentes
Como começar na Umbanda?
Busque um terreiro de confiança, converse com um sacerdote e inicie os estudos e práticas com respeito.
O que é Umbanda?
Umbanda é uma religião afro-brasileira que sintetiza elementos africanos, indígenas e espiritistas.
Qual a diferença entre Umbanda e Candomblé?
A Umbanda incorpora mais elementos espiritistas e trabalha com entidades diversas; o Candomblé é mais próximo das tradições africanas.

