Quem são os Erês na Umbanda: pureza e poder infantil
Descubra como as crianças espirituais da Umbanda trazem alegria, proteção e leveza aos terreiros
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Desde os meus primeiros anos como cartomante e mãe de santo, os Erês sempre me chamaram atenção por algo que o terreiro inteiro sente, mas poucos conseguem explicar em palavras: a pureza de uma criança que nunca envelhece, e o poder desse espírito para transformar energias pesadas em algo leve, quase brincadeira. Não é à toa que, nos momentos mais difíceis de uma gira, é a chegada de um Erê que desarma a tensão e faz todo mundo respirar.
Você já parou para pensar por que a Umbanda reserva um espaço tão especial para essas entidades? Por que uma religião que lida com forças tão intensas — justiça, morte, amor, guerra — confia em crianças espirituais para equilibrar o ambiente? A resposta está no que os Erês representam: a inocência que ainda sabe, a alegria que cura, e a proteção que vem sem questionar.
"Em março de 2023, uma mãe de três filhos chegou ao meu terreiro em Araguaína dizendo que a casa dela parecia 'pesada demais'. O marido tinha perdido o emprego, o filho do meio não dormia direito, e ela mesma acordava com angústia sem motivo aparente. Na gira, foi o Erê que chegou primeiro. Ele disse, naquela vozinha que parece misto de riso e seriedade, que alguém tinha deixado 'muita tristeza no quintal'. Orientamos uma limpeza simples com água de flor e mel, e a criança — que nem tinha nome de rua ainda — pediu bala de côco na despedida. Em duas semanas, a mãe voltou sorrindo: o marido tinha conseguido um novo trabalho, e o filho dormia a noite toda. O Erê não fez trovão. Ele fez o que a criança sabe fazer melhor: devolver a leveza."
Por que os Erês são os primeiros a chegar em uma gira aberta?
Na Umbanda, a ordem das chegadas não é aleatória. Quando uma gira está aberta para o público, os Erês são frequentemente os primeiros a se manifestar — e isso tem um significado profundo. Eles vêm para limpar o ambiente, para desarmar as energias densas que as pessoas trazem consigo, e para estabelecer um campo de proteção antes que entidades mais pesadas, como os Caveiras ou as Pombagiras, deem o ar de sua graça.
Essa função de "abrir o caminho" não é técnica: é vibracional. A energia infantil dos Erês é tão alta e tão pura que, simplesmente por estarem presentes, ela dissolve o que está embaixo. É como tentar manter a escuridão num quarto onde uma criança acendeu uma lanterna colorida. A escuridão não luta: ela some.
Como me disse uma vez Pai João de Adja, um dos mais respeitados dirigentes de terreiro do Recôncavo Baiano: "Os Erês não precisam de posto para serem guardiões. A inocência deles é a própria coroa."
Os 5 sinais de que um Erê está perto de você
- Vontade súbita de rir sem motivo aparente, especialmente em momentos de tensão
- Sono de criança — aquela sensação de peso gostoso nos olhos, mesmo de dia
- Cheiro de bala, chiclete ou mel sem explicação física no ambiente
- Objetos pequenos somem e reaparecem em lugares óbvios (brincadeira deles)
- Vontade de cuidar de alguém mais fraco, mesmo sem obrigação
De onde vêm os Erês? A origem que o terreiro não esquece
A palavra Erê vem do iorubá ere, que significa "criança" ou "pequeno". Na tradição iorubá, as crianças são consideradas portadoras de uma proximidade especial com o sagrado: elas ainda não foram completamente moldadas pela cultura, pelos medos ou pelas limitações do mundo adulto. Por isso, na visão ancestral, falar com uma criança é, em certo sentido, falar com o próximo mundo — e vice-versa.
No Brasil, essa crença encontrou terreno fértil na Umbanda, que desde a sua fundação por Zélio Fernandino de Moraes em 1908, no Rio de Janeiro, absorveu elementos do Kardecismo, do Candomblé e das religiosidades populares. Os Erês não são uma invenção da Umbanda: eles são uma herança que a religião recebeu e transformou, dando a essas entidades infantis um papel estrutural no funcionamento dos terreiros.
Segundo o IBGE, no Censo de 2010, cerca de 12.000 terreiros de Umbanda estavam registrados em atividade no Brasil, distribuídos por todas as regiões do país. Em cada um deles, os Erês têm um espaço — às vezes simbolizado por uma imagem de criança, às vezes por um simples apito ou por um prato de doces no altar. A UNESCO reconheceu, em 2003, o Candomblé e a Umbanda como expressões do Patrimônio Imaterial da Humanidade, reforçando a importância dessas tradições no cenário cultural brasileiro.
A diferença entre Erê e outras entidades infantis
- Erê: espírito de criança que atua na Umbanda, com função de proteção e alegria
- Ìbejì: gêmeos sagrados do Candomblé, orixás infantis com rituais próprios
- Anjo de guarda: conceito cristão, não incorporado no terreiro
- Criança de branco: termo genérico para médiuns infantis em desenvolvimento
"Os Erês não precisam de posto para serem guardiões. A inocência deles é a própria coroa." — Pai João de Adja
O que os Erês comem? Oferendas que fazem sentido
Se você já viu um altar de Erê em um terreiro, provavelmente notou que ele não se parece com os altares de outros espíritos. Não há cachaça, não há fumo, não há demandas de trabalho pesado. O que há é doçura: bala de côco, pé de moleque, pé de moleque, doces caseiros, mel, leite com chocolate, e às vezes um simples copo de guaraná com gás.
Essa preferência não é capricho. Os Erês se alimentam de energias que correspondem à sua natureza: leve, doce, infantil. Oferecer algo amargo ou pesado a um Erê é, na prática espiritual, um sinal de que quem oferece não entendeu ainda com quem está lidando. Como eu sempre digo nos meus atendimentos: "Você não dá café a uma criança de cinco anos. Por que daria cachaça a um Erê?"
A oferenda mais comum — e uma das mais eficazes — é o mel com água de flor. Em um prato branco, junto com uma bala de côco ou um pedaço de rapadura, essa oferenda pode ser deixada em casa, numa área externa, ou levada ao terreiro na sexta-feira, dia que muitas casas dedicam às entidades infantis e às linhas de proteção.
"Você não dá café a uma criança de cinco anos. Por que daria cachaça a um Erê?" — Mãe Michele
Os Erês na prática do terreiro: brincadeira que é trabalho sério
Quem nunca participou de uma gira pode achar que a chegada de um Erê é apenas "bonitinha". Mas quem está do outro lado — o médium que incorpora, o dirigente que comanda, o pai ou mãe de santo que orienta — sabe que a brincadeira tem regras. Um Erê pode brincar, pode rir, pode pedir doce, mas ele também pode alertar, proteger e, quando necessário, intervir com uma precisão que entidades mais velhas não conseguem.
A isso se deve algo que a Fundação Cultural Palmares documenta em suas pesquisas sobre religiosidade afro-brasileira: a criança, na tradição africana, não é vista como ser incompleto. Pelo contrário, ela é considerada um ser integral, que possui uma conexão direta com o mundo espiritual e que, por isso, pode ser consultada, ouvida e respeitada. Os Erês na Umbanda são a continuação dessa lógica: eles não são "versões menores" de outros espíritos. Eles são o que são — e o que são é o suficiente.
Em 2022, uma pesquisa da Universidade Federal da Bahia (CEAO/UFBA) sobre práticas religiosas em Salvador apontou que, em mais de 60% dos terreiros de Umbanda visitados, os Erês eram citados como entidades "essenciais para o equilíbrio da casa". Não como coadjuvantes. Como fundamentais.
O que os Erês podem fazer por você
- Limpeza energética da casa e do ambiente de trabalho, sem rituais pesados
- Proteção de crianças e adolescentes, especialmente em momentos de transição
- Melhora do sono e redução de pesadelos, através da "energia de colo"
- Alegria e leveza em períodos de tristeza ou estresse prolongado
- Abertura de caminhos em situações que parecem bloqueadas pela "negatividade do dia a dia"
- Comunicação com outros planos — os Erês são considerados excelentes "mensageiros" entre mundos
Quando um Erê fala, é bom ouvir
Uma das coisas mais comuns que ouço nos atendimentos é a surpresa de pais com a clareza das mensagens que os Erês trazem. "Mas ele fala como criança!", dizem. E eu respondo: "É exatamente por isso que você deveria prestar mais atenção." A criança não tem filtro. O Erê também não. Quando ele diz que algo está errado, está. Quando ele diz que vai ficar bem, vai.
Isso não quer dizer que os Erês sejam adivinhos. Eles são espíritos de proteção e de alegria, e a previsão não é o dom principal deles. Mas quando eles se manifestam em um momento de consulta — seja por búzios, seja por incorporação — a mensagem que trazem tem uma característica rara: é quase impossível de ser mal interpretada. Ela é simples, direta, e geralmente vem acompanhada de uma sensação de alívio que o consulente sente no corpo antes mesmo de entender a palavra.
Os Erês e o sincretismo: São Cosme e Damião, os gêmeos da fé
No sincretismo religioso brasileiro, os Erês são associados a São Cosme e Damião, os gêmeos médicos que, na tradição católica, são padroeiros das crianças e dos médicos. Essa associação não é arbitrária: Cosme e Damião eram conhecidos por curar sem cobrar, por tratar crianças e pobres, e por uma pureza de intenção que a tradição popular brasileira reconheceu como "infantil" — no sentido bom da palavra, de alguém que age sem segundas intenções.
Em setembro, quando muitos terreiros celebram o dia de São Cosme e Damião, é comum ver distribuição de doces para crianças, brincadeiras, e uma energia de comunhão que lembra muito o que os Erês trazem em uma gira comum. A Iphan, em seu registro de festas populares, documenta essa celebração como uma das mais significativas do calendário religioso brasileiro, especialmente no Nordeste e no estado da Bahia.
O que levar para casa
Acho que o que mais me toca nos Erês, depois de todos esses anos de terreiro, é a lembrança de que a espiritualidade não precisa ser sempre pesada para ser verdadeira. A gente aprende a respeitar o Caveira, a temer o Exú, a se render ao amor de Iemanjá — e esquece que, no meio de tudo isso, há uma criança espiritual que só quer brincar, proteger e fazer o ambiente ficar mais leve.
Como eu sempre digo nos meus atendimentos: quando você sentir que a vida está muito pesada, demais para carregar, não procure força. Procure leveza. E a leveza, na Umbanda, tem nome de criança.
Laroyê, meus Erês! Que a doçura de vocês nunca falte nos nossos caminhos. 🍬
Veja também:
- Quem é o Erê na Umbanda: a criança que nunca cresce
- Quem são os Caboclos na Umbanda: origem indígena e missão
- Quem são os Ciganos na Umbanda: o povo do fogo e da liberdade
- O que é Gira: os rituais de incorporação na Umbanda
- Como se proteger espiritualmente: guia completo de defesa
- Como identificar seu dom mediúnico: sinais e confirmação
Fontes e Referências:
- Religião Iorubá — Wikipédia
- UNESCO — Patrimônio Imaterial da Humanidade
- Iphan — Patrimônio Cultural
- Fundação Cultural Palmares
- Censo IBGE 2010 — dados sobre terreiros de Umbanda no Brasil
- Pesquisa CEAO/UFBA 2022 — práticas religiosas em Salvador
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre Erê e Ìbejì do Candomblé?
O Erê é uma entidade espiritual infantil da Umbanda, com função de proteção e alegria. O Ìbejì é um orixá infantil do Candomblé, gêmeo sagrado com rituais próprios de iniciação e culto. Ambos representam a infância no sagrado, mas pertencem a tradições religiosas diferentes.
Por que os Erês são os primeiros a chegar em uma gira?
Os Erês chegam primeiro para limpar o ambiente energético, desarmar tensões e estabelecer um campo de proteção. A pureza vibracional deles prepara o terreiro para receber entidades mais pesadas, como Caveiras ou Pombagiras.
Quais doces devo oferecer a um Erê?
Bala de côco, pé de moleque, rapadura, mel, leite com chocolate e guaraná com gás são as oferendas mais comuns. Evite cachaça, fumo ou comidas pesadas — a oferenda deve condizer com a natureza doce e leve do Erê.
Os Erês fazem previsões ou trabalhos espirituais?
Os Erês não são entidades de previsão. Seu dom principal é a proteção, a limpeza energética e a transmissão de mensagens simples e diretas. Quando falam em consulta, sua mensagem é clara e quase impossível de mal interpretar.
Qual é o dia dos Erês no terreiro?
Muitos terreiros dedicam a sexta-feira às entidades infantis e às linhas de proteção, incluindo os Erês. No entanto, a data pode variar conforme a tradição de cada casa.
Como saber se um Erê está perto de mim?
Sinais comuns incluem: vontade súbita de rir sem motivo, cheiro de bala ou mel sem explicação, objetos pequenos sumindo e reaparecendo, sensação de sono gostoso, e vontade intensa de cuidar de alguém mais vulnerável.

