Quem é o Erê na Umbanda: a criança que nunca cresce
Entenda a energia infantil da Umbanda, sua origem em Ibeji e Oxalá, e como trabalhar com essa entidade de pureza e proteção

Tem uma ideia errada que eu gostaria de corrigir antes de qualquer coisa: Erê não é simplesmente uma entidade "de brincadeira". Ele é um espírito de luz, de pureza, que traz o princípio da criança para dentro da mediunidade. E na minha experiência, quem consegue aproximar-se da energia do Erê com respeito, descobre um portal de desenvolvimento mediúnico que não encontra em lugar nenhum. Tem os ritos solenes, as saudações graves, o silêncio que cai quando uma entidade de direita se aproxima. Mas também tem o outro lado — o riso, a brincadeira, a saia sendo puxada por alguém que ninguém vê. É aí que entra o Erê na Umbanda, a criança que nunca cresce e que, acredite, é uma das entidades mais poderosas que você vai encontrar no seu caminho espiritual.
Tem uma ideia errada que eu gostaria de corrigir antes de qualquer coisa: Erê não é simplesmente uma entidade "de brincadeira". Ele é um espírito de luz, de pureza, que traz o princípio da criança para dentro da mediunidade. E na minha experiência, quem consegue aproximar-se da energia do Erê com respeito, descobre um portal de desenvolvimento mediúnico que não encontra em lugar nenhum.
De acordo com o CEAO/UFBA (Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia), as tradições de culto às crianças espirituais no Brasil remontam aos terreiros mais antigos do século XIX, com registros de incorporação de entidades infantis desde os primórdios da Umbanda organizada. O Erê é filho de Ibeji — os gêmeos sagrados do panteão iorubá — e vibra na frequência de Oxalá, o Orixá da paz e da criação. Isso já diz muito sobre quem ele é.
O Erê não é o que parece
Na Umbanda, as entidades se dividem em linhas. A maioria das pessoas conhece a linha de trás (os Pretos Velhos), a linha de frente (os Caboclos), a direita (as entidades de descarga e força). Mas o Erê vive em uma frequência à parte — ele não é exatamente de esquerda, não é de direita. Ele é o início de tudo, o princípio da pureza antes do conhecimento.
Na minha prática, eu vejo isso com frequência: pessoas que vêm ao terreiro buscando força, guerreiros, guias poderosos, e o que recebem é uma criança sorrindo e pedindo doce. Muitos se frustram. "Mãe Michele, eu vim pra trabalho sério, não pra brincadeira." Eu entendo. Mas é exatamente essa frustração que o Erê vem curar — a rigidez adulta que fecha os caminhos espirituais.
Segundo dados da Fundação Cultural Palmares, a Umbanda é reconhecida como patrimônio cultural brasileiro, e dentro dela, o culto às entidades infantis mantém uma estrutura própria de trabalho, com rituais diferenciados e oferendas específicas que variam entre as casas. Não é algo improvisado — é tradição.
O que o Erê faz no terreiro?
- Desbloqueia a mediunidade: a energia infantil é inocente, não tem bloqueio mental. Ela abre caminhos onde a mente adulta só vê muro.
- Trabalha com crianças e jovens: problemas de comportamento, medos noturnos, dificuldades de aprendizado — o Erê tem acesso a essa frequência.
- Traz alegria e descontração: em terreiros muito pesados, a energia do Erê é o que equilibra o ambiente.
- Pede, mas entrega: ele vai pedir doce, brinquedo, bala. Mas quem oferece com amor recebe proteção em troca.
- Atua na linha do axé: como filho de Oxalá, ele carrega o princípio da criação e da renovação. Não subestime isso.
- Faz as pazes: em famílias desestruturadas, em conflitos entre pais e filhos, o Erê é um dos mais eficazes que eu já vi trabalhar.
Como trabalhar com o Erê na Umbanda
Se você sente que precisa dessa energia, ou se um médium na sua casa recebeu essa entidade, é importante saber que o Erê não aceita rigidez. O trabalho com ele exige leveza, mas também exige estrutura. Não é bagunça — é brincadeira com propósito.
Na Wikipédia, sobre a Religião Iorubá, é possível encontrar referências à figura de Ibeji (ou Ibeji), os gêmeos sagrados que são a origem mítica de todas as entidades infantis nos cultos afro-brasileiros. O Erê vem dessa linha, dessa árvore.
Passo a passo para um trabalho com Erê
- Consulta espiritual: antes de qualquer coisa, é preciso saber se o Erê aceita fazer o trabalho. Nem todo caso é dele.
- Preparação do local: o Erê gosta de ambientes limpos, coloridos, com cheiro de infância. Balas, doces, brinquedos.
- Oferenda: pirulitos, chocolates, bolas, piões, carrinhos — o material pode ser simples, mas deve ser oferecido com carinho.
- Gira de incorporação: se o médium recebe o Erê, a energia é de movimento, riso, brincadeira. Não force seriedade.
- Acompanhamento: o trabalho com Erê muitas vezes precisa de continuidade. Uma vez não resolve tudo.
"Como eu sempre digo nos meus atendimentos: o Erê não vem pra resolver o que você quer. Ele vem pra resolver o que você precisa, e que a sua cabeça de adulto esqueceu."
A oferenda do Erê: o que funciona e o que não funciona
Eu já vi gente tentar oferecer coisas complicadas ao Erê. Ele não quer complicação. Ele quer doce, cor, movimento, alegria. A UNESCO reconhece as práticas de culto afro-brasileiro como patrimônio imaterial da humanidade, e dentro delas, a relação entre oferenda e entidade segue uma lógica de correspondência energética — não é o valor material, é o significado.
O que oferecer ao Erê
- Bala de goma, pirulito, chocolate: doces infantis são a base.
- Brinquedos pequenos: carrinhos, bonecas, bolas, piões.
- Frapê, refrigerante: bebidas doces, coloridas.
- Cores vibrantes: toalhas vermelhas, amarelas, azuis — o Erê gosta de vida.
- Música: não precisa de ponto cantado grave. Pode ser algo leve, até infantil.
O que NÃO oferecer ao Erê
- Bebidas alcoólicas: ele é criança. Álcool não combina.
- Comidas salgadas: não é proibido, mas não é o que ele pede.
- Oferendas pesadas: velas pretas, trabalhos de esquerda — isso não é com ele.
- Promessas que não vai cumprir: o Erê é criança, mas é espírito. Ele cobra.
O Erê e a mediunidade infantil
Aqui vai uma verdade que eu aprendi na prática: as crianças enxergam o Erê com mais facilidade que os adultos. Não é exagero. O mundo espiritual não está fechado para elas — elas ainda não aprenderam a não ver. Na minha experiência, quando uma criança diz que tem "amigos invisíveis", muitas vezes é o Erê ou outras entidades da linha infantil que se aproximaram.
O problema é que o adulto, com medo, fecha a porta. Diz que é imaginação. E às vezes, nesse fechamento, bloqueia um dom mediúnico que poderia se desenvolver com saúde. Não estou dizendo que toda criança com "amigo imaginário" é médium. Mas estou dizendo que vale a pena investigar com respeito, em vez de ridicularizar com ignorância.
Segundo o IPHAN, o registro de práticas mediúnicas e o culto às entidades infantis no Brasil é parte da história do terreiro como espaço de cuidado comunitário. A criança que vê, que sente, que sonha — ela não está doente. Ela está aberta.
Como saber se o Erê está na sua casa?
Tem sinais que não dá pra ignorar. Na minha prática, eu vejo com frequência:
- Movimento de objetos pequenos: brinquedos que mudam de lugar, doces que somem.
- Risos sem explicação: alguém ouvindo gargalhada quando está sozinho.
- Crianças falando de "amigos": especialmente com descrições detalhadas.
- Alegria súbita: estar triste e, do nada, sentir uma leveza que não faz sentido.
- Sono tranquilo: quando o Erê está por perto, os pesadelos somem.
- Desejos de infância: adultos que, de repente, querem assistir desenhos, comer doces, brincar.
Se você sente esses sinais, não tenha medo. O Erê não é entidade de dano — ele é de proteção, de abertura, de alegria. Mas se estiver incomodando, uma consulta pode ajudar a entender o que ele precisa.
O Erê na Umbanda e na Quimbanda
Aqui é importante separar: o Erê existe na Umbanda, no Candomblé, nas tradições de matriz africana. Na Quimbanda, ele não tem o mesmo espaço — a energia quimbandística é mais voltada para força, obsessão, trabalho pesado. Não que seja impossível, mas não é o terreno natural dele.
Na Umbanda, o Erê é uma das entidades da linha de esquerda? Não, ele não é de esquerda. Ele é de luz, de criação, de inocência. Mas na Umbanda, muitas vezes ele trabalha ao lado das entidades de esquerda, equilibrando o peso com leveza. É o que eu chamo de "contrapeso espiritual" — o terreiro precisa dos dois polos para funcionar.
Se você quer entender melhor como as linhas se organizam, vale a pena ler sobre o que é uma gira na Umbanda e como as entidades se dividem dentro do ritual.
Onde o Erê mora?
Isso é uma pergunta que eu recebo muito: "Mãe Michele, onde o Erê fica? Qual é o ponto dele?" A resposta é simples e complexa ao mesmo tempo: o Erê mora onde há alegria, onde há criança, onde há pureza. Ele não tem um ponto fixo como algumas entidades — ele vibra onde o coração está aberto.
Mas se você precisa de um lugar material para conectar, eu recomendo:
- Quintais com árvores: especialmente amendoeiras, jabuticabeiras, árvores frutíferas.
- Parques e praças: onde as crianças brincam.
- Hospitais pediátricos: o Erê é um dos que mais atuam nesses espaços, embora invisível.
- Escolas: especialmente as de ensino fundamental.
- Lares com crianças: onde há alegria, onde há choro, onde há vida sendo formada.
Se você quer aprofundar o seu conhecimento sobre as entidades que habitam esses espaços, também temos um texto sobre as ondinas na Umbanda, que trabalham com a mesma frequência de proteção, mas na água.
Conclusão: a lição que o Erê me deu
Todo ano, no dia das crianças, eu faço um trabalho especial no meu terreiro para o Erê. Não é o trabalho mais sofisticado — tem doce, tem balão, tem risada. Mas é o trabalho que mais me emociona. Porque o Erê me lembra, toda vez, que a espiritualidade não é só sofrimento. É também alegria. É também brincadeira. É também doce na boca e calor no coração.
Se você chegou até aqui, talvez seja porque alguma coisa dentro de você ainda sabe o que é isso. Alguma parte que não endureceu completamente. Que ainda acredita que o espiritual pode ser leve. E pode. O Erê prova que pode.
Laroyê! Que a alegria do Erê abra os seus caminhos, hoje e sempre.
Veja também:
- O que é Axé: a força vital que move a Umbanda
- Exú Tranca-Rua: o guardião dos caminhos
- O que é Gira: os rituais de incorporação na Umbanda
- Quimbanda e a Magia: práticas, rituais e responsabilidade
- Ondinas na Umbanda: espíritos das águas e proteção
- Magia branca na Umbanda: o que é permitido e recomendado
Fontes e Referências
Perguntas frequentes
Quem são os pais do Erê na Umbanda?
O Erê é filho de Ibeji, os gêmeos sagrados do panteão iorubá (Logun Edé e Ibeji), e vibra na frequência de Oxalá, o Orixá da paz e da criação.
O Erê é uma entidade de esquerda?
Não. O Erê não é entidade de esquerda. Ele é de luz, pureza e inocência, carregando o princípio da criança espiritual. Na Umbanda, ele trabalha como equilíbrio entre os polos pesados e leves do terreiro.
Como oferecer ao Erê corretamente?
O Erê aceita doces infantis (pirulitos, balas, chocolates), brinquedos pequenos, bebidas doces e cores vibrantes. Nunca ofereça bebidas alcoólicas, comidas salgadas ou itens de trabalhos pesados de esquerda.
O Erê pode ajudar crianças que veem espíritos?
Sim. O Erê trabalha diretamente com a frequência infantil e é uma das entidades mais eficazes para proteger crianças mediúnicas, desbloquear medos noturnos e acalmar energias perturbadoras.
Qual a diferença entre Erê e Ibeji?
Ibeji é o Orixá gêmeo, a origem mítica. Erê é a entidade espiritual que se manifesta nos terreiros, a criança que incorpora no médium. Todos os Erês vêm da linha de Ibeji, mas nem toda entidade de Ibeji é Erê.
Onde o Erê atua espiritualmente?
O Erê vibra onde há alegria, infância e pureza: quintais com árvores frutíferas, parques, escolas, hospitais pediátricos e lares com crianças. Ele não tem um ponto fixo, mas segue a frequência do coração aberto.

