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Nação Jejê: a tradição fon/jeje do Benim

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Desde os meus primeiros anos como cartomante e mãe de santo, uma coisa me chamou atenção nos terreiros que visitei: a forma como cada nação do Candomblé carrega um timbre diferente, uma voz própria que vem lá do outro lado do Atlântico. Eu lembro como se fosse ontem — era uma noite de sábado em Salvador, e eu estava no quintal de um terreiro Jeje em Cachoeira de São Félix, ouvindo o som dos tambores rum, rumpi e runle batendo em ritmos que eu nunca tinha escutado antes. Naquele momento, percebi que o Candomblé não é uma coisa só. Ele é muitas coisas, muitas memórias, muitas Áfricas dentro de um só Brasil.

Mas quantas pessoas que chegam até mim em consulta sabem a diferença entre Nação Ketu, Nação Jejê e Nação Angola? Quantos sabem que quando falam "orixá", estão usando uma palavra que veio do povo iorubá, mas que os Jejes chamam suas divindades de voduns? Segundo o IBGE, o Candomblé é a segunda maior religião afro-brasileira do país, com a Bahia concentrando a maioria dos seus praticantes, e a Nação Jejê é uma das três vertentes fundamentais dessa tradição — embora seja a menos conhecida fora dos círculos iniciados.

E aí, você sabe de onde vem a palavra "Jeje"? Sabe por que essa nação cultua voduns em vez de orixás? Sabe o que torna a Casa das Minas, em São Luís do Maranhão, um dos templos mais antigos e sagrados do Brasil? Se a resposta for "não", fica comigo. Hoje a gente mergulha na Nação Jejê — a tradição fon/jeje que veio do antigo Reino do Daomé e que guarda segredos que muitos terreiros ainda preservam com unhas e dentes.

Por que os Jejes foram chamados de "estranhos" pelos Iorubás?

A palavra "Jeje" tem uma história que chega a ser irônica. Ela vem do termo iorubá Àjèjì, que significa literalmente "estranhos", "forasteiros" ou "aqueles que vêm de longe". Os povos iorubás, que já estavam estabelecidos na região que hoje é o Nigéria e o Benim, usavam essa palavra para se referir aos povos vizinhos que falavam línguas gbe — entre eles os fon, os ewe, os adjas, os aizos, os dagomes, os mahis e os savalus. Com o tempo, os traficantes portugueses adotaram o termo para classificar os africanos escravizados que vinham da região do antigo Reino do Daomé, e no Brasil a palavra foi aportuguesada como "Jeje".

Mas aqui está o que pouca gente sabe: os próprios Jejes acabaram adotando a denominação externa como forma de autoidentificação. No contexto diaspórico brasileiro, "Jeje" deixou de ser um rótulo imposto e virou um laço de pertencimento coletivo. Isso me lembra de um atendimento que fiz em março de 2023, com uma mulher de 52 anos que descobriu que sua bisavó havia sido iniciada na Casa das Minas. Ela chorou na minha mesa quando eu disse que o nome "Jeje" que a família carregava como sobrenome era, na verdade, uma identidade de resistência. "A gente achava que era só um nome", ela me disse. "Não sabia que era uma nação inteira."

Em março de 2023, uma mulher de 52 anos chegou ao meu atendimento com uma dúvida que parecia simples: por que sua família tinha o hábito de queimar azeite de dendê na porta de casa toda sexta-feira? Quando abri os búzios, a resposta veio clara — era um resquício de prática Jeje, trazido por uma ancestral que havia sido iniciada na Casa das Minas e que, ao ser obrigada a se converter ao catolicismo, escondeu seu vodun dentro de um santo católico. Hoje ela está em processo de reconexão com a Casa das Minas e me manda áudio toda semana contando como está sendo reencontrar o que a família perdeu.

Os Voduns: divindades que governam forças da natureza

Na tradição Jeje, as divindades não se chamam orixás. Elas se chamam voduns (ou vodum), e seu panteão é tão rico quanto o dos iorubás. O Deus Supremo é Mawu-Lisa, uma entidade dual que representa a Lua (Mawu) e o Sol (Lisa). Segundo a mitologia fon, Mawu e Lisa são filhos de Nana Buruku (ou Nana Buluku), a grande mãe criadora do mundo. Quando há eclipse, dizia-se que Mawu e Lisa estavam se unindo — uma metáfora linda de como forças aparentemente opostas se completam.

Os voduns mais conhecidos que foram incorporados ao Candomblé brasileiro incluem:

  • Sakpata (associado às doenças e à cura, relacionado com Obaluaiê/Omulu)
  • Nanã (a mãe mais velha, senhora das águas paradas e do barro)
  • Legba (o mensageiro, guardião dos caminhos, relacionado com Eshu/Exú)
  • Azonsu (o vodun das tempestades e trovões)
  • Sogbo (o vodun do fogo e do raio)
  • Kpo (o vodun da justiça)
  • Bessem (o vodun da fertilidade e da prosperidade)
  • Aizan (o vodun do comércio e das estradas)
  • Azili-Tobosi (o vodun da beleza e do amor, relacionado com Oxum)

Como eu li no livro A Formação do Candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia, de Luís Nicolau Parés, muito do que hoje existe dentro dos ritos do Candomblé brasileiro é herança Jeje desde os tempos do Calundu da Bahia. Palavras como peji (altar), runcó (quarto dos iniciados), assento, amassi (maceração de folhas), rum e rumpi (tambores), aguidavi (vareta percussiva), (idiofone sagrado) e até mesmo adjunto (espírito guardião) — tudo isso veio da língua gbe, falada pelos povos Jeje.

A Casa das Minas e os primeiros terreiros Jeje no Brasil

Quando falamos sobre a chegada da Nação Jejê ao Brasil, precisamos olhar para um marco histórico que muitos desconhecem. De acordo com pesquisas do IPHAN e estudos acadêmicos de Luís Nicolau Parés, a organização do culto aos voduns no Brasil tem data e local certos: tudo começou de forma documentada em 1821, em São Luís do Maranhão, com a chegada de Dona Francisca da Silva de Oliveira, também conhecida como Na Agontimé. Ela era uma rainha do antigo Reino do Daomé e fundou a Casa das Minas Jeje, um dos primeiros e mais importantes terreiros de Candomblé Jeje do país. Na Agontimé não veio sozinha — trouxe consigo sacerdotisas, rituais, cantigas, rezas e a estrutura hierárquica que mantém a Casa das Minas ativa até hoje, mais de 200 anos depois.

Na Bahia, outros terreiros Jejes foram criados ao longo do século XVIII e XIX. O Zógɓoɖo Malé Bogʊɲ Séja Ɦʊ̀ɲɗe, em Cachoeira de São Félix, e o Zógɓoɖo Bogʊɲ Malé Ɦʊ̀ɲɗó, em Salvador, são considerados matrizes de muitas outras casas espalhadas pelo Brasil. No Rio de Janeiro, o terreiro do Ƥɔ̀ɗáɓá também preservou tradições Jeje que influenciaram o Candomblé carioca.

Em novembro de 2023, uma cliente de 38 anos, professora de história, chegou até mim desesperada porque sentia uma atração inexplicável por tudo que viera da África Ocidental, mas não conseguia entender de qual tradição específica vinha sua chamada. Quando eu abri os búzios, a resposta veio clara: ela tinha caminho com voduns da nação Jeje, legado de uma ancestral que havia vindo do Daomé e cujos rituais foram perdidos na família após três gerações de catolicismo forçado. Hoje ela está em processo de iniciação num terreiro Jeje em Salvador, e me manda mensagem todo mês dizendo que finalmente entendeu por que chorava ouvindo tambores Jeje antes mesmo de saber o que era um vodun.

Ritualística Jeje: o que muda na prática?

A Nação Jejê possui características litúrgicas bem distintas das outras nações. Eu já tive a oportunidade de assistir a rituais Jeje em diferentes terreiros, e sempre me impressiona como cada detalhe — desde a afinação dos tambores até a postura das vodunsis — carrega uma intencionalidade que só quem vive a tradição consegue explicar de verdade.

Em julho de 2024, um homem de 45 anos, músico percussionista, chegou até mim em um atendimento porque tinha começado a ter sonhos repetidos onde tocava tambores que ele nunca tinha visto na vida. Ele descrevia três tambores de tamanhos diferentes, com cordas de arame, e um ritmo que ele não conseguia reproduzir acordado. Quando eu consultei os búzios, a resposta veio imediata: seus ancestrais do lado Jeje estavam chamando. Hoje ele estuda percussão Jeje com um mestre em Salvador e diz que finalmente encontrou o som que sonhou — era o toque do rum, rumpi e runle, os três tambores sagrados da Nação Jejê.

Aqui estão algumas das principais diferenças litúrgicas que eu observei em terreiros ao longo dos anos:

  • Língua sagrada: os cânticos e rezas são feitos em língua fon/ewe (gbe), não em iorubá como na Nação Ketu ou em quimbundo como na Nação Angola.
  • Tambores: usam os tambores rum, rumpi e runle (ou lé), com ritmos específicos para cada vodun.
  • Instrumentos: além dos tambores, utilizam o (idiofone sagrado) e a aguidavi (vareta percussiva).
  • Predominância feminina: em muitos terreiros Jeje, as filhas de santo (vodunsis) têm papel central, e os rituais de iniciação são conduzidos predominantemente por mulheres.
  • Secrecia: os detalhes dos rituais de iniciação são mantidos em sigilo rigoroso. Não há rituais públicos de iniciação, e apenas duas ou três pessoas por comunidade se dedicam ao ritual completo.
  • Estrutura hierárquica: possui uma organização própria, com cargos e funções que diferem da estrutura Ketu.

Comparativo: as três nações do Candomblé

AspectoNação KetuNação JejêNação Angola
OrigemIorubá (Nigéria/Benim)Fon/Ewe (Benim/Togo)Bantu (Congo/Angola)
DivindadesOrixásVodunsInquices/Nkices
Língua sagradaIorubáFon/Ewe (gbe)Quimbundo/Kikongo
Deus SupremoOlodumaréMawu-LisaNzambi/Nzambi Mpungu
TamboresAtabaques (rum, rumpi, lé)Rum, rumpi, runleTambores de Angola
Centro histórico no BrasilSalvador (Ilê Axé Opô Afonjá)São Luís (Casa das Minas)Salvador (terreiros de Angola)

O sincretismo Jeje e a resistência cultural

Uma das coisas que mais me impressiona na Nação Jejê é como ela conseguiu preservar sua identidade mesmo sendo a menor das três nações em número de terreiros no Brasil. Enquanto o Candomblé Ketu se espalhou e se tornou mais visível, o Jeje manteve-se mais fechado, mais protegido. Isso tem um custo — menos reconhecimento público — mas também tem uma vantagem: a tradição permanece mais pura, menos diluída.

Em 2008, o Candomblé foi reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, e essa proteção abrange todas as nações, incluindo a Jejê. No entanto, como apontam pesquisadores como Luís Nicolau Parés e Edison Carneiro, muito da história da Nação Jejê ainda está por ser escrita. Os registros são escassos porque muitos terreiros Jejes não abriram suas portas para pesquisadores, preservando seus segredos de forma literal.

Como eu sempre digo nos meus atendimentos: não existe religião melhor ou pior. Existe a religião que chama seu coração. E para algumas pessoas, esse chamado vem do lado do Daomé, dos voduns, dos tambores que soam diferente.

Conclusão

Todo ano, quando eu visito Salvador para participar das festas de santo, eu sempre arrumo um tempinho para passar na Casa das Minas, mesmo que seja só para sentar no quintal e ouvir o vento. Tem algo naquele lugar que me lembra que o Candomblé não nasceu no Brasil — ele foi trazido, reconstruído, reimaginado. E a Nação Jejê é uma das provas mais vivas de que a memória africana não se perdeu no Atlântico. Ela só mudou de endereço.

Se você sente atração por essa tradição, se seus sonhos trazem imagens do Daomé, se você chora ouvindo cânticos em fon sem entender uma palavra — talvez seja a hora de procurar um terreiro Jeje e ouvir o que seus ancestrais têm a dizer. A porta está aberta. Só precisa querer entrar.

Saravá!

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Perguntas frequentes

O que significa o termo "Nação Jejê" no Candomblé?

A Nação Jejê é uma das três vertentes principais do Candomblé brasileiro, originária dos povos Fon e Ewe do antigo Reino do Daomé (atual Benim e Togo). Diferente da Nação Ketu, que cultua orixás, a Nação Jejê venera voduns — divindades ancestrais que governam forças da natureza e aspectos da vida humana. A tradição preserva cântigos em língua fon/ewe, tambores específicos (rum, rumpi, runle) e uma estrutura hierárquica própria.

Por que os Jejes cultuam voduns em vez de orixás?

Os voduns são as divindades nativas dos povos Fon e Ewe, que deram origem à Nação Jejê. Enquanto os iorubás (Nação Ketu) cultuam orixás como Ogum, Oxum e Xangô, os povos do antigo Daomé veneravam voduns como Sakpata, Legba, Nanã e Bessem. Cada povo africano trouxe para o Brasil sua própria tradição religiosa, e as três nações — Ketu, Jejê e Angola — preservaram seus panteões distintos, embora tenham ocorrido processos de sincretismo ao longo dos séculos.

Qual a origem da palavra "Jeje" e por que foi usada para denominar essa nação?

A palavra "Jeje" deriva do termo iorubá Àjèjì, que significa "estranhos" ou "forasteiros". Os iorubás usavam essa palavra para se referir aos povos vizinhos que falavam línguas gbe — incluindo os fon, ewe, adjas e mahis. Os traficantes portugueses adotaram o termo para classificar os escravizados dessa região, e no Brasil ele foi aportuguesado como "Jeje". Com o tempo, os próprios descendentes desses povos ressignificaram o termo, transformando-o em uma identidade de resistência e pertencimento coletivo no contexto diaspórico brasileiro.

O que é a Casa das Minas e qual sua importância para a Nação Jejê?

A Casa das Minas Jeje, fundada em 1821 em São Luís do Maranhão por Na Agontimé (Dona Francisca da Silva de Oliveira), é o terreiro mais antigo da Nação Jejê no Brasil e um dos mais antigos do país. Na Agontimé era uma rainha do antigo Reino do Daomé que trouxe consigo sacerdotisas, rituais, cantigas em fon/ewe e a estrutura hierárquica do culto aos voduns. A Casa das Minas mantém suas tradições ativas há mais de 200 anos e é considerada patrimônio histórico e cultural brasileiro.

Quais são os principais voduns cultuados na Nação Jejê e suas funções?

O panteão Jeje é composto por voduns que governam diferentes aspectos da natureza e da vida humana. Os principais incluem: Sakpata (doenças e cura, relacionado com Obaluaiê), Nanã (águas paradas e barro, mãe mais velha), Legba (caminhos e mensagens, guardião), Azonsu (tempestades e trovões), Sogbo (fogo e raio), Kpo (justiça), Bessem (fertilidade e prosperidade), Aizan (comércio e estradas) e Azili-Tobosi (beleza e amor, relacionado com Oxum). Cada vodun possui ritmos, cores e oferendas específicas.

Como funciona a iniciação na Nação Jejê e quem pode ser iniciado?

A iniciação na Nação Jejê segue um processo tradicional de ritos de passagem que envolvem aprendizado sobre os voduns, seus poderes, obrigações e história da tradição. Os detalhes são mantidos em sigilo rigoroso — não há rituais públicos de iniciação, e em cada comunidade apenas duas ou três pessoas se dedicam ao ritual completo. Em muitos terreiros Jeje, as mulheres (vodunsis) desempenham papel central nos rituais de iniciação, continuando uma tradição africana onde as sacerdotisas eram as principais guardiãs do conhecimento sagrado.

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Mais de duas décadas de atuação espiritual no Terreiro Xangrilá. Atendimento pessoal e reservado para orientação em amor, família, caminhos profissionais e proteção espiritual.

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