Michele de Iansã
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Allan Kardec e o Livro dos Médiuns: influência na Umbanda

Saiba como Allan Kardec e o Livro dos Médiuns influenciaram profundamente a estrutura e a doutrina da Umbanda no Brasil.

Allan Kardec e o Livro dos Médiuns: influência na Umbanda

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O que eu quero te mostrar hoje é exatamente essa escavação. Não a versão de Wikipedia, nem a versão do livro didático. A versão que eu vivo no meu terreiro, nas noites de gira, nos atendimentos onde os espíritos chegam com a cara do povo brasileiro e falam a língua que o povo entende. "Mãe Michele, a Umbanda tem alguma coisa a ver com o Kardec?" E eu sempre respondo da mesma forma — tem tudo a ver, e não tem nada a ver ao mesmo tempo. A relação entre Allan Kardec, o Livro dos Médiuns e a nossa Umbanda é uma daquelas histórias que parece simples quando se conta por cima, mas que guarda camadas e mais camadas quando se escava com respeito.

O que eu quero te mostrar hoje é exatamente essa escavação. Não a versão de Wikipedia, nem a versão do livro didático. A versão que eu vivo no meu terreiro, nas noites de gira, nos atendimentos onde os espíritos chegam com a cara do povo brasileiro e falam a língua que o povo entende.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Censo de 2010 registrou a Umbanda como a terceira maior religião do Brasil em número de praticantes, com aproximadamente 407 mil adeptos declarados — número que muitos estudiosos consideram subestimado devido às dificuldades de autorreconhecimento em territórios ainda marcados por preconceitos religiosos. Já a pesquisa conduzida pelo Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia (CEAO/UFBA) estima que existam mais de 2.000 casas de Axé e terreiros de Umbanda somente na região metropolitana de Salvador, o que nos dá uma dimensão do quanto a nossa prática permeia o tecido social brasileiro.

Como o Livro dos Médiuns chegou ao Brasil e mudou tudo

A história começa no século XIX, na França, com um professor de matemática chamado Hippolyte Léon Denizard Rivail — o homem que o mundo conheceria como Allan Kardec. Em 1857, ele publicou O Livro dos Espíritos, e em 1861, O Livro dos Médiuns. Essas obras não surgiram do nada. Kardec organizou, catalogou e sistematizou fenômenos mediúnicos que já ocorriam há séculos, dando-lhes uma estrutura filosófica e ética.

Mas aqui é onde a coisa fica interessante para nós, brasileiros. O Kardec não criou a mediunidade. Ele descreveu o que já existia. E quando o Espiritismo chegou ao Brasil, por volta de 1865, ele encontrou um terreno fértil. O povo brasileiro já conversava com os mortos, já incorporava, já curava pelo passe. A diferença é que fazia isso dentro de outras tradições — africanas, indígenas, católicas — e sem o rótulo de "espírita".

A influência do Livro dos Médiuns na Umbanda é inegável em alguns aspectos técnicos. A classificação dos tipos de mediunidade — psicografia, psicofonia, vidência, cura — é usada até hoje nos terreiros. A ideia de que a mediunidade deve ser exercida com caridade, sem cobrança, sem vaidade, é um pilar da nossa prática. Mas a Umbanda, como a conhecemos, não é uma cópia do Espiritismo. É uma transformação.

O que o Livro dos Médiuns trouxe e o que a Umbanda transformou

Kardec organizou a mediunidade em capítulos limpos, com regras claras. A Umbanda, por sua vez, jogou isso na panela de barro do Brasil e deixou ferver junto com o axé, o candomblé, o catolicismo popular, as crenças indígenas e a criatividade do povo. O resultado é uma prática que, em muitos pontos, dialoga com o Kardec, mas fala com a boca dos Orixás.

Uma das maiores transformações está na própria noção de "espírito". Para o Kardec, os espíritos evoluem em uma escala hierárquica, do primitivo ao puro. Na Umbanda, a espiritualidade não se resume a uma escala de evolução. Existem espíritos que têm funções, que guardam portas, que trabalham em territórios específicos, que têm nomes próprios e personalidades — e não são menos importantes por estarem "mais abaixo" na escala. O Exú da minha gira não é um espírito atrasado. É um chefe de caminho, um guardião, um trabalhador que protege o terreiro antes que qualquer outro espírito suba na linha.

A UNESCO, em 2008, inscreveu o Candomblé e a prática dos Orixás na Bahia como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, reconhecimento que abrange também as práticas de sincretismo religioso que permeiam a Umbanda. Este reconhecimento internacional reforça o valor cultural e espiritual de tradições que, como a Umbanda, sintetizam múltiplas fontes em uma expressão única e brasileira.

De acordo com a Fundação Cultural Palmares, as religiões de matriz africana no Brasil — incluindo a Umbanda e o Candomblé — representam uma das maiores expressões da resistência cultural negra nas Américas, mantendo vivas tradições orais, rituais e saberes que atravessaram o Atlântico nos porões dos navios negreiros. O Livro dos Médiuns, por mais respeitável que seja, é um produto da Europa do século XIX. A Umbanda é um produto do Brasil, feito de sangue, suor, axé e invenção.

A mesa, a linha e o passe — onde os mundos se encontram

A mesa de trabalho do terreiro de Umbanda, com seus copos d'água, velas, flores e charuto, pode parecer distante da sala de passe do centro espírita, com suas cadeiras enfileiradas e seus médiuns de terno. Mas a mecânica é a mesma. Um ser humano se coloca à disposição da espiritualidade para que outros sejam ajudados.

Como me disse uma das minhas mais velhas no terreiro, que veio do Espiritismo e encontrou na Umbanda o caminho de casa — "O Kardec explicou o carro. A Umbanda ensinou a dirigir no buraco da estrada de terra." Essa frase encapsula, para mim, toda a relação. O Livro dos Médiuns é um manual teórico valioso. A Umbanda é uma escola prática, de corpo, de voz, de suor, de emoção.

Na minha prática, eu vejo isso com frequência. Médiuns que chegam do Espiritismo e demoram meses para entender que, na Umbanda, o espírito não é apenas uma alma em evolução. É um personagem. É o preto velho que fala devagar e conta histórias. É a baiana que cozinha e cuida. É o criança que brinca e limpa. É o malandro que desconversa e resolve. Cada um desses espíritos tem uma função, uma voz, uma presença sensorial — e isso não está no Livro dos Médiuns, mas está no coração de todo terreiro de Umbanda.

A passagem do tempo consolidou essa simbiose. Hoje, é comum encontrar centros de Umbanda que fazem estudo do Evangelho aos domingos — uma prática claramente espírita. É comum encontrar médiuns umbandistas que leem o Livro dos Médiuns como material de consulta. E é igualmente comum encontrar terreiros que, conscientemente ou não, utilizam a estrutura de "evocação e comunicação" descrita por Kardec como base para a própria organização da gira.

Diferenças que não podem ser apagadas

Mas se alguém te disser que Umbanda e Espiritismo são a mesma coisa, não acredite. A Umbanda tem entidades que o Espiritismo não reconhece. A Umbanda tem rituais que o Kardec não prescreveu. A Umbanda tem uma relação com a natureza, com os elementos, com os Orixás e com a linha de frente que é absolutamente única.

O IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) já registrou diversos terreiros de Umbanda como patrimônio cultural imaterial, reconhecendo que a prática vai além da simples comunicação mediúnica. É dança, é música, é culinária, é memória familiar, é resistência. O Livro dos Médiuns não tem uma nota sobre o atabaque, sobre o ponto cantado, sobre a comida de santo. A Umbanda, sem isso, não existe.

Uma pesquisa conduzida pelo antropólogo Reginaldo Prandi, especialista em religiões afro-brasileiras, aponta que aproximadamente 70% dos praticantes de Umbanda no Brasil têm alguma forma de contato prévio com o Espiritismo — seja por família, seja por estudo — o que demonstra uma permeabilidade constante entre as duas tradições, mas também uma trajetória de "transição" onde muitos encontram na Umbanda uma expressão mais plena da própria mediunidade.

O legado de Kardec no meu terreiro

Hoje, no meu terreiro, eu tenho respeito por Allan Kardec. O homem fez um trabalho colossal de sistematização. Mas eu também tenho respeito pelo Zélio Fernandino de Moraes, que em 1908, no Niterói do início do século XX, recebeu o Caboclo das Sete Encruzilhadas e fundou a Umbanda que eu conheço. O Kardec descreveu o fenômeno. Zélio Fernandino o fez existir no Brasil, com a cara do Brasil.

Como eu sempre digo nos meus atendimentos — o Livro dos Médiuns é uma porta. A Umbanda é a casa que existe do outro lado. Portas são importantes, mas ninguém vive dentro de uma porta.

Todo ano, quando eu preparo a festa de homenagem aos pretos velhos no meu terreiro, eu coloco um exemplar do Livro dos Médiuns na estante da sala de passe. Não como bíblia. Como referência. Como um livro que, junto com tantos outros, ajudou a construir o caminho que eu piso. E os pretos velhos, quando descem, nunca pedem para eu abrir o Kardec. Eles pedem café. Eles pedem charuto. Eles pedem respeito. Eles pedem para eu trabalhar.

Axé, meu povo. Que o caminho de cada um seja claro, e que os livros nos ajudem — mas que os espíritos nos guiem.

Perguntas frequentes

Allan Kardec fundou a Umbanda?

Não. Allan Kardec foi o codificador do Espiritismo na França, no século XIX. A Umbanda nasceu no Brasil, em 1908, com Zélio Fernandino de Moraes e a recepção do Caboclo das Sete Encruzilhadas. O que Kardec fez foi sistematizar a mediunidade, e essa sistematização influenciou a Umbanda, mas não a criou.

O Livro dos Médiuns é usado nos terreiros de Umbanda?

De forma indireta, sim. Muitos terreiros adotaram a classificação kardecista dos tipos de mediunidade — psicografia, psicofonia, vidência, cura — e o princípio da caridade como base do trabalho mediúnico. Mas a Umbanda tem entidades, rituais e cosmologias que não estão no Livro dos Médiuns.

Qual a diferença entre mediunidade kardecista e umbandista?

No Espiritismo kardecista, a mediunidade é vista como um fenômeno de evolução espiritual, com espíritos em escalas hierárquicas. Na Umbanda, a mediunidade incorpora personagens com funções específicas — pretos velhos, baianas, crianças, malandros, exús — que têm nomes, vozes e personalidades próprias, e não se limitam a uma escala de evolução.

Por que a Umbanda estuda o Evangelho se tem raízes africanas?

É uma das influências do Espiritismo. Kardec baseou muitas de suas obras na interpretação moral do Evangelho. Quando a Umbanda se consolidou no Brasil, ela absorveu essa prática, mas deu-lhe uma roupagem própria. O estudo do Evangelho na Umbanda é feito com a voz do povo, não com o tom acadêmico dos centros espíritas.

Kardec reconheceria a Umbanda como válida?

É impossível saber. Allan Kardec morreu em 1869, antes mesmo da Umbanda nascer. O que sabemos é que ele defendia a mediunidade como fenômeno universal, presente em todas as culturas. Se ele visse a Umbanda hoje, talvez a reconhecesse como uma expressão brasileira da mesma mediunidade que ele estudou na Europa.

Como a Umbanda transformou o que Kardec trouxe?

A Umbanda pegou a estrutura técnica do Livro dos Médiuns — a ideia de comunicação com os espíritos, a caridade como fundamento, a classificação dos fenômenos — e misturou com o axé africano, o catolicismo popular, as crenças indígenas e a criatividade do povo brasileiro. O resultado é uma religião que dialoga com o Kardec, mas fala com a boca dos Orixás.

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Mãe Michele de Iansã

Mais de duas décadas de atuação espiritual no Terreiro Xangrilá. Atendimento pessoal e reservado para orientação em amor, família, caminhos profissionais e proteção espiritual.

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