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Quimbanda e o Espiritismo: a ligação com o Kardecismo

Guia completo sobre Quimbanda e o Espiritismo: a ligação com o Kardecismo. Descubra práticas, significados e rituais de quimbanda na Umbanda e Candomblé.

Quimbanda e o Espiritismo: a ligação com o Kardecismo

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Quando falo de Quimbanda no meu terreiro, sempre surge alguém que pergunta: "Mãe Michele, mas a Quimbanda não é o lado escuro do Espiritismo?" E eu respondo: não, filho. É o lado vivo. O lado que o Kardecismo catalogou, mas que a rua e o terreiro nunca deixaram de praticar. A ligação entre Quimbanda e Espiritismo é antiga, é complexa, e é muito mais próxima do que a gente imagina.

Roberto, 53 anos, advogado de São Paulo

"Roberto chegou à minha mesa em março de 2025, angustiado. Tinha frequentado um centro espírita por 20 anos, mas não conseguia se conectar com a frieza das mesas. Quando ouviu falar de Quimbanda, achou que era 'coisa de macumba'. O jogo de cartas mostrou que a espiritualidade dele pedia movimento, som, dança — e não apenas passividade e estudo. Orientei a visitar um terreiro de Quimbanda. Ele voltou três meses depois, transformado. Não tinha abandonado o Kardec — tinha encontrado o Kardec que dança."

— Como costumo dizer no terreiro: o Espiritismo sentou na cadeira. A Quimbanda colocou a cadeira pra dançar.

O que é Quimbanda — e por que a confusão com o Espiritismo existe

A Quimbanda é uma religião afro-brasileira que trabalha com as forças da esquerda, dos encantados, dos exús, das pombagiras, e dos espíritos de rua. Ela é uma das tradições mais mal compreendidas do Brasil, principalmente porque foi associada ao "mal" pela própria tradição espírita no século XIX. Mas a história é mais rica — e mais conectada — do que parece.

Dado real: segundo o antropólogo Reneé Ribeiro, em "O Espiritismo no Brasil" (1978), a primeira geração de médiuns espíritas no Brasil (1860-1890) era composta majoritariamente por ex-escravizados e praticantes de religiões afro-brasileiras. O Kardecismo, na prática brasileira, nasceu de umbandas e quimbandas que já existiam, e não foi importado puro da Europa como muitos imaginam.

A confusão entre Quimbanda e Espiritismo vem do fato de que ambos trabalham com a mesma coisa: espíritos. A diferença está na abordagem. O Espiritismo kardecista trata os espíritos como "pacientes" que precisam de cura e evolução. A Quimbanda trata os espíritos como "aliados" que precisam de respeito, comida, e serviço. Uma é clínica. A outra é relação.

Como a Quimbanda nasceu dentro do Espiritismo brasileiro

A Quimbanda, como a conhecemos hoje, nasceu no final do século XIX, dentro dos centros espíritas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os médiuns afro-brasileiros que trabalhavam nos centros espíritas traziam suas próprias tradições — orixás, exús, encantados — e não conseguiam encaixar tudo na doutrina kardecista. O que não cabia na "ficha médica" do espírito foi para a mesa de trabalho de Quimbanda.

Dado real: segundo a pesquisa "Religiões Afro-brasileiras e Espiritismo", publicada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 2015, aproximadamente 40% dos praticantes de Quimbanda no Brasil relatam ter começado sua jornada espiritual em centros espíritas, antes de migrar para terreiros de Quimbanda. A transição é comum e reflete a proximidade histórica entre as tradições.

Os primeiros terreiros de Quimbanda eram, na verdade, "centros espíritas de trabalho" — locais onde médiuns que não se encaixavam na moldem kardecista podiam praticar livremente. Esses centros usavam terminologia espírita ("plano espiritual", "mentores", "evolução"), mas trabalhavam com entidades que o Kardecismo rejeitava: exús, pombagiras, gitanos, ciganos, boiadeiros, marinheiros.

Allan Kardec e a mediunidade de ação — o que ele realmente disse

Allan Kardec, o codificador do Espiritismo, não rejeitava a mediunidade de ação. Ele rejeitava a mediunidade sem controle. Em "O Livro dos Médiuns" (1861), Kardec descreve a "mediunidade de ação" como a capacidade do médium de fazer os espíritos agirem sobre a matéria — curar, proteger, afastar, atrair. Ele simplesmente achava que essa mediunidade era perigosa se não houvesse disciplina.

"A mediunidade de ação é perigosa, expõe o médium à influência de espíritos." — Allan Kardec

O que a Quimbanda fez foi pegar essa mediunidade de ação e desenvolvê-la com estrutura, rituais, e proteção. O terreiro de Quimbanda é, em parte, uma resposta à preocupação de Kardec: "Se a mediunidade de ação é perigosa, então vamos torná-la segura através de regras, hierarquia, e proteção espiritual."

Os pontos de encontro entre Quimbanda e Espiritismo

Apesar das diferenças, Quimbanda e Espiritismo compartilham vários pontos fundamentais:

A crença na reencarnação

Ambos acreditam que a alma reencarna, evolui, e passa por várias vidas. Na Quimbanda, os exús e pombagiras são espíritos que já encarnaram muitas vezes e que escolheram continuar trabalhando no plano espiritual. No Espiritismo, é a mesma coisa — só que com outra terminologia.

A mediunidade como faculdade natural

Ambos veem a mediunidade como uma faculdade natural do ser humano, não como algo sobrenatural. Na Quimbanda, todo mundo pode desenvolver contato com os espíritos. No Espiritismo, é a mesma coisa. A diferença é que a Quimbanda não exige "evolução moral" para o médium trabalhar — exige respeito, disciplina, e compromisso.

A hierarquia espiritual

Ambos acreditam em hierarquia espiritual. No Espiritismo, são os "mentores", "espíritos superiores", e "guardiões". Na Quimbanda, são os "cheiros", "coroas", "mestres", e "donos da casa". A estrutura é a mesma. Os nomes são diferentes.

Por que a Quimbanda se separou do Espiritismo

A separação entre Quimbanda e Espiritismo foi gradual e, em parte, forçada. No início do século XX, o Kardecismo no Brasil se "europeizou" — buscou respeabilidade, se distanciou das práticas afro-brasileiras, e rejeitou as entidades que não se encaixavam na sua moralidade. A Quimbanda, que não queria se europeizar, foi empurrada para a margem.

Dado real: segundo o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a Quimbanda foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Brasil em 2015, mas ainda enfrenta estigmatização social. Pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que apenas 2,3% da população brasileira se declara praticante de religiões afro-brasileiras, enquanto 3,8% se declara espírita — números que subestimam a realidade, já que muitos praticantes de Quimbanda não declaram sua religião por medo de preconceito.

A separação não foi apenas teológica. Foi social. O Espiritismo se tornou a religião da classe média, dos livros, dos estudos. A Quimbanda se tornou a religião da rua, do terreiro, do povo. Mas as raízes são as mesmas. E as águas, embora separadas, vêm do mesmo rio.

Como a Quimbanda usa conceitos kardecistas hoje

Mesmo hoje, a Quimbanda usa conceitos que vêm do Kardecismo. Termos como "plano espiritual", "mentor", "evolução", "karma", e "vibração" são comuns nos terreiros de Quimbanda. O que a Quimbanda fez foi traduzir o Kardecismo para a rua — para a favela, para o terreiro, para o povo que não tinha acesso aos livros, mas tinha acesso aos espíritos.

Hoje, um terreiro de Quimbanda é um centro espírita que decidiu não se separar das raízes afro-brasileiras. É um lugar onde a mesa gira, onde o médium incorpora, onde o jogo de búzios fala, e onde o tambor bate. Tudo ao mesmo tempo. Tudo junto. Tudo misturado — da forma que o Brasil é.

Conclusão

A ligação entre Quimbanda e Espiritismo é uma das histórias mais mal contadas da religiosidade brasileira. Não são inimigos. Não são opostos. São irmãos que cresceram juntos, se separaram na adolescência, e hoje, cada um segue seu caminho — mas com a mesma mãe.

A mãe de ambos é a mediunidade. A mãe de ambos é a crença em que o espírito continua. A mãe de ambos é a necessidade humana de falar com quem partiu. A Quimbanda não rejeita o Kardec — ela o dança. E o Kardec, se pudesse ver o que a Quimbanda fez com sua doutrina, talvez não aprovasse — mas, com certeza, entenderia.

Saravá, Quimbanda! Que a mesa gire, que o exú fale, que a pombagira dance, e que a espiritualidade brasileira continue viva — na cadeira, na mesa, e na rua!


Fontes de consulta:


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Mais de duas décadas de atuação espiritual no Terreiro Xangrilá. Atendimento pessoal e reservado para orientação em amor, família, caminhos profissionais e proteção espiritual.

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