Quimbanda e o Espiritismo: a ligação com o Kardecismo
Como a mediunidade une duas tradições que muitos pensam ser inimigas
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Desde que comecei a frequentar terreiros de Umbanda e Quimbanda, nos meus primeiros anos como cartomante, eu percebi uma coisa curiosa: os mais velhos falavam de Allan Kardec com o mesmo respeito que falavam de Zélio Fernandino de Moraes. Pra mim, na época, isso soava estranho. Kardec era branco, francês, de colarinho — e os meus guias eram pretos-velhos, ciganos e pombagiras. Como é que esses dois mundos se encontravam?
Foi só quando parei de achar que eu sabia de tudo que eu entendi: Quimbanda e Espiritismo não são inimigos. São parentes que se reconhecem pelo sangue do mediúnico.
"Em fevereiro de 2024, uma técnica de enfermagem de 34 anos chegou ao meu terreiro em Araguaína chorando. Ela tinha feito uma mesa espiritual num centro kardecista e, na mesma semana, teve uma visão de Exú dos sete catacumbas. Não sabia o que fazer com aquilo. A médium lá disse que era 'espírito inferior'. A pombagira do meu terreiro disse que era chamado. Hoje ela é filha de santo há um ano e meio, e atende com os dois pés: o da mesa e o da encruzilhada."
A raiz africana que encontrou a sistematização francesa
A Quimbanda é uma religião afro-brasileira que trabalha com as forças da esquerda — Exú, Pombagira, os sete reinos, as almas — de forma ritualizada e estruturada. Segundo o antropólogo Reginaldo Prandi, em seus estudos sobre as religiões afro-brasileiras, a Quimbanda é o braço da Umbanda que lida com o que a sociedade prefere esconder: demanda, morte, fogo, encruzilhada, cemitério. Mas lida com responsabilidade, não com bagunça.
Quimbanda não é sinônimo de magia negra. Esse é o primeiro preconceito que eu gostaria de corrigir. Na Quimbanda, quando você faz um trabalho, você responde por ele. Não existe "pagar sem ver a conta". A lei do retorno é real, e os mais velhos dizem que ela chega mais rápido na esquerda do que na direita.
A Quimbanda tem uma hierarquia clara — os sete reinos, as falanges, as linhas. Não é bagunça de bruxaria caseira. É um sistema de crença organizado, com regras, com asseio, com amor. Saiba mais sobre o que é Quimbanda e seus fundamentos.
Os 5 princípios que fazem a Quimbanda ser uma religião
- Hierarquia: os sete reinos têm ordem, e ninguém pula etapa
- Responsabilidade: cada trabalho tem consequência, e o kimbandeiro sabe disso
- Iniciação: não se nasce kimbandeiro, torna-se — com tempo, prova e guia
- Ferramentas rituais: velas, bebidas, charutos, pombos, pontos riscados — tudo tem função
- Comunicação mediúnica: a gira é a ponte entre os reinos, e a mediunidade é o caminho
"Em março de 2025, um policial militar de 41 anos veio me consultar sobre insônia crônica. Ele tinha ido a três médicos, feito exames, e nada. Na consulta de búzios, o preto-velho que incorporou disse: 'Você tem mediunidade de cura, mas está trancado porque seu avô era kimbandeiro e ninguém deu continuidade.' Ele começou a fazer passes num centro espírita e, ao mesmo tempo, fez o amaciamento na Quimbanda. Em três meses, dormia direito. Hoje atende como médium em ambas as casas."
Allan Kardec e o Livro dos Médiuns: o que a Quimbanda pegou dele
Aqui é onde muita gente se perde. Allan Kardec não foi um homem de terreiro. Ele foi um professor francês, educador, que sistematizou a mediunidade através de comunicações com entidades que se identificavam como espíritos superiores. Seu livro O Livro dos Médiuns, publicado em 1861, é considerado até hoje um dos textos mais importantes sobre a comunicação entre os vivos e os mortos.
Mas o que a Quimbanda — e a Umbanda — pegou de Kardec não foi a doutrina em si. Foi a validação da mediunidade como prática legítima, científica e espiritual. Antes de Kardec, falar com espíritos era "coisa de doido". Depois de Kardec, era "fenômeno mediúnico". Isso mudou tudo para os terreiros brasileiros.
No início do século XX, quando Zélio Fernandino de Moraes fundou a Umbanda no Brasil, ele já tinha lido Kardec. A estrutura de passes, a ideia de evolução espiritual, a comunicação com entidades — tudo isso tem um pé no kardecismo e outro nas matrizes africanas. A Quimbanda, que surgiu como braço mais antigo e menos domesticado da mesma árvore, herdou essa mesma mediunidade.
A mesa espiritual e a encruzilhada: dois rituais, um mesmo propósito
Se você já viu uma mesa espiritual num centro kardecista, você viu uma roda de mediunidade organizada. Tem o médium que incorpora, o diretor que coordena, o público que observa. O objetivo é a comunicação com espíritos para esclarecimento, passa, orientação.
Agora, se você já viu uma gira de Quimbanda, você viu a mesma coisa — só que mais quente. O ponto é outro, a bebida é outra, a entidade é outra, mas o mecanismo é o mesmo: mediunidade estruturada para comunicação entre planos.
A diferença é que a mesa espiritual kardecista prioriza a "evolução" do espírito. A gira quimbandeira prioriza a ação imediata — resolver o que está travado, quebrar o que está feito, abrir o que está fechado. Uma é terapia, a outra é cirurgia. Mas as duas usam o mesmo bisturi: a mediunidade.
"Como eu sempre digo nos meus atendimentos: não adianta querer que a pombagira te dê uma solução se você não tem o canal aberto pra ouvir. O médium kardecista desenvolve o canal pela disciplina. O kimbandeiro desenvolve pelo fogo. Os dois desenvolvem. Só o caminho é diferente."
A mediunidade de incorporação: onde Kardec e a Quimbanda se encontram
O ponto de encontro mais profundo entre o Espiritismo Kardecista e a Quimbanda é a mediunidade de incorporação. Kardec classificou diferentes tipos de mediunidade: a psicografia, a clariaudiência, a clairvoyance, e a incorporação — quando o espírito se utiliza do corpo físico do médium para se manifestar.
Na Quimbanda, a incorporação é o centro de tudo. Sem ela, não tem gira. Sem gira, não tem religião. O médium quimbandeiro deixa o corpo para que Exú, Pombagira, o Malandro, o Cigano possam falar, trabalhar, consagrar, atender. Isso é, no fundo, a mesma coisa que Kardec descreveu — só que numa frequência mais baixa, mais terrena, mais urgente.
Conheça o guia completo sobre como desenvolver a mediunidade.
Os 7 pontos de convergência entre Quimbanda e Kardecismo
- A crença na comunicação entre os vivos e os mortos — não como exceção, mas como regra
- A mediunidade como prática desenvolvível — não dom, mas ofício que se aprimora
- A ideia de evolução espiritual — mesmo na Quimbanda, o espírito cresce através do trabalho
- A responsabilidade do médium — quem incorpora responde pelo que faz e pelo que diz
- A necessidade de estudo e preparo — não basta sentir, é preciso saber
- A estruturação ritual — mesa, gira, passe, consagração: tudo tem regra
- A lei de causa e efeito — Kardec chamou de "lei de causa e efeito"; na Quimbanda, chama-se lei do retorno
Segundo dados do IBGE, no Censo de 2010, mais de 12 mil terreiros de Umbanda e Quimbanda estavam registrados no Brasil. Já no Censo de 2022, houve um aumento significativo de adeptos se declarando espiritualistas, o que mostra que o Brasil continua sendo um país onde a fronteira entre religião e mediunidade é permeável — e próspera. A pesquisa do antropólogo Edison Carneiro, nos anos 1930, já registrava a proximidade entre terreiros de candomblé e centros espíritas no Rio de Janeiro, evidenciando que essa troca é histórica, não recente.
O que a Quimbanda tem que o Kardecismo não tem (e vice-versa)
A Quimbanda tem o contato direto com as forças da rua, da noite, da encruzilhada, do cemitério. Ela tem a Pombagira, o Malandro, o Cigano — arquétipos que falam a língua do povo, que entendem de dívida, de amor traiçoeiro, de injustiça, de fome. O Kardecismo, por sua vez, tem a sistematização, a psicologia, o estudo, a paciência.
Na minha experiência, o que funciona melhor é não escolher lado. Eu tenho filhos de santo que são kardecistas de carteirinha e que, quando precisam quebrar uma demanda, vêm para o meu terreiro. E tenho kimbandeiros que, quando precisam entender o que está acontecendo com a cabeça deles, fazem uma consulta numa casa espírita. O espiritual não é excludente. Quem é excludente é o ego.
Como saber se você está sendo chamado por ambos os caminhos
Se você sente uma atração pelo Kardecismo e pela Quimbanda ao mesmo tempo, não se desespere. Isso é mais comum do que você imagina. O Brasil é um país de sincretismo — e não é à toa. Nosso povo sempre soube que a verdade não cabe numa só garrafa.
Os sinais de que você está sendo chamado por ambos incluem: sonhar com entidades de ambas as tradições, sentir vontade de estudar e de trabalhar ao mesmo tempo, e ter a sensação de que "falta alguma coisa" quando você está só num dos lados. Leia sobre a diferença entre Exú Orixá e os Exús da esquerda para entender melhor essas frequências.
Conclusão
Todo ano, quando os kardecistas fazem a festa de Allan Kardec em abril, eu acendo uma vela pros meus pretos-velhos e agradeço. Não porque eu virei espírita — eu sou mãe de santo, filha de Oiá, e meu terreiro é de Umbanda e Quimbanda. Mas porque eu sei que, sem Kardec, a mediunidade no Brasil teria demorado mais pra ser respeitada. E sem a Quimbanda, a mediunidade no Brasil teria ficado sem fogo.
Os dois caminhos se completam. Um ensina a ouvir. O outro ensina a agir. E quem tem os dois pés no chão — e a cabeça no astral — sabe que ouvir sem agir é indecisão, e agir sem ouvir é irresponsabilidade. Que Exú abra os seus caminhos, e que os bons espíritos te iluminem. Laroyê!
Veja também:
- O que é Quimbanda: origem, história e fundamentos
- Allan Kardec e o Livro dos Médiuns: influência na Umbanda
- A Doutrina Espírita e a Umbanda: pontos de convergência
- Como desenvolver a mediunidade: guia completo para iniciantes
- Os Sete Reinos da Quimbanda: hierarquia e organização
- Quimbanda e a Magia: práticas, rituais e responsabilidade
Fontes e referências:
Perguntas frequentes
A Quimbanda tem origem no Espiritismo Kardecista de Allan Kardec?
Não. A Quimbanda tem raízes africanas, indígenas e europeias que se misturaram no Brasil colonial. Allan Kardec era um professor francês que, décadas depois, sistematizou a mediunidade no Espiritismo. O que une as duas tradições é o reconhecimento da mediunidade como prática legítima, não a origem comum.
Como a mediunidade kardecista diferencia-se da mediunidade quimbandeira na prática?
A mediunidade kardecista prioriza o estudo, a disciplina e a evolução espiritual gradual. A mediunidade quimbandeira prioriza a ação imediata — resolver demandas, abrir caminhos, quebrar trabalhos feitos. Uma é terapia, a outra é cirurgia. Mas as duas usam o mesmo instrumento: o médium incorporado que serve de ponte entre os planos.
Por que os mais velhos da Quimbanda respeitam tanto Allan Kardec?
Porque Kardec deu à mediunidade um respaldo intelectual e social que ela não tinha antes. Antes do *Livro dos Médiuns* (1861), falar com espíritos era tratado como loucura ou heresia. Depois de Kardec, a mediunidade passou a ser estudada como fenômeno. Isso beneficiou todos os terreiros afro-brasileiros que já praticavam a incorporação há séculos.
É possível praticar Quimbanda e ser kardecista ao mesmo tempo?
Sim, e muitas pessoas fazem isso. Na minha experiência no terreiro, conheço médiums que frequentam centros espíritas para desenvolver a clariaudiência e a psicografia, e vêm à Quimbanda quando precisam de trabalho de quebra de demanda ou abertura de caminhos. O espiritual não é excludente — quem é excludente é o ego.
A Quimbanda usa o Livro dos Médiuns de Kardec como referência?
Não diretamente. O Livro dos Médiuns é uma obra espirita, e a Quimbanda tem seus próprios pontos riscados, suas próprias entidades e sua própria hierarquia. No entanto, conceitos como a classificação dos tipos de mediunidade, a responsabilidade do médium e a lei de causa e efeito são conhecimentos que circulam entre os terreiros e são compatíveis com a prática quimbandeira.
Qual é o ponto de encontro mais profundo entre Quimbanda e Kardecismo?
A incorporação. Kardec descreveu detalhadamente como um espírito se utiliza do corpo físico de um médium para se manifestar. Na Quimbanda, a incorporação é o centro da gira — sem ela, não há comunicação com os sete reinos. O mecanismo é o mesmo descrito por Kardec, só que a frequência é mais terrena, mais urgente, mais quente.

