Quem são os Malandros na Umbanda: Zé Pelintra e sua falange
Os Malandros: quem são, de onde vieram e o que fazem no terreiro
⏱️ Tempo de leitura: ~11 minutos
Desde os meus primeiros anos como cartomante, eu sempre senti que o terreiro pulsa com uma energia diferente quando os Malandros chegam. Não é a mesma coisa que sentir um Preto-Velho, com aquele peso doce e aconchegante do conselho. Não é a mesma coisa que um Caboclo, com o cheiro de mato e o fogo da guerra. É outra coisa. É o riso que corta o choro, a ironia que desarma o medo, a malandragem que transforma o impossível em caminho.
Se você já pisou num terreiro de Umbanda e sentiu aquela vibração de quem sabe de tudo, de quem já viu de tudo, e mesmo assim não perdeu o bom humor — provavelmente você estava perto de um Malandro. Mas quem são essas entidades, de verdade? O que Zé Pelintra e sua falange fazem na linha de esquerda? Vou te contar o que aprendi ao vivo, com o pontinhão na cabeça e o cigarro na mão.
Por que a malandragem é uma forma de resistência espiritual
A história dos Malandros na Umbanda é a história do Brasil que os livros de História não contam direito. Segundo o IBGE, o Censo de 2010 registrou mais de 13 milhões de brasileiros autodeclarados como praticantes de religiões afro-brasileiras — e grande parte dessa manifestação popular encontrou na Quimbanda e na Umbanda uma forma de organizar o caos da vida cotidiana. Mas os Malandros não vieram dos templos. Eles vieram da calçada, do botequim, do jogo do bicho, do samba de rodas e do jeitinho brasileiro que vira sobrevivência.
Zé Pelintra, a figura mais conhecida da falange, surgiu como entidade incorporada no Rio de Janeiro na primeira metade do século XX, trazendo consigo o universo do malandro carioca: o homem de perna arqueada, de terno impecável, de cartola e de sapato engraxado, que vence pela esperteza e não pela força bruta. Não é à toa que ele é frequentemente associado a Exú, o mensageiro que abre caminhos onde não há caminho.
A UNESCO, ao reconhecer o samba de roda e as práticas afro-brasileiras como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, deixou claro que essas manifestações não são folclore — são estratégias de resistência. E os Malandros carregam essa resistência no corpo: eles são a inteligência do oprimido, a ironia do escravizado que ri da cara do senhor para não chorar.
A falange dos Malandros: não é só Zé Pelintra
Muita gente acha que Malandro na Umbanda é sinônimo de Zé Pelintra. Errou feio. Zé Pelintra é o mais famoso, mas a falange é vasta e cada um tem sua especialidade. Conhecer essa diferença é fundamental para quem precisa de um trabalho espiritual específico.
Zé Pelintra é o chefe da falange, o dono da mesa. Ele é protetor das mulheres, dos artistas, dos que trabalham na noite. Ele abre caminhos na justiça, resolve problemas amorosos com uma pitada de ironia e é conhecido por fazer o impossível com um sorriso no rosto. Quando ele incorpora, o terreiro vira botequim. Ele pede cerveja, cigarro, joga cartas e fala umas verdades que doem na hora, mas depois a gente lembra e entende.
Zé Pilintra é o irmão, muitas vezes confundido com o Pelintra. Ele é mais ligado às tradições do samba e às roda de terreiro, trazendo alegria e descontração. Já vi muitos médiuns confundindo os dois, mas quem conhece a vibração sabe: o Pelintra é mais sério por baixo do riso; o Pilintra é pura festa.
Dona Maria do Padre e outras entidades femininas da falange também existem, embora menos comuns. Elas trazem a malandragem no corpo feminino — a mulher que sabe jogar, que sabe esperar, que sabe fazer o homem virar gato para depois resolver o problema com a paz.
O que os Malandros fazem no terreiro? A malandragem como ferramenta espiritual
Aqui no meu terreiro, eu já vi o Malandro fazer coisas que não têm explicação racional. Uma vez, uma mulher chegou desesperada porque o marido tinha sumido com outra e deixado a casa vazia. Zé Pelintra incorporou, deu risada, pediu um uísque e disse: "Filha, vai lá buscar o que é teu. Não com o choro, com o corpo." A mulher não entendeu na hora, mas três dias depois o marido apareceu na porta pedindo perdão e trazendo os móveis de volta. A malandragem espiritual não é agressão — é movimento.
Os trabalhos mais comuns com a falange dos Malandros envolvem:
- Abertura de caminhos na justiça: quando a causa está presa, quando o processo não anda, quando o advogado não consegue explicar por que demora tanto. O Malandro desarma o adversário pela esperteza.
- Proteção de mulheres: especialmente aquelas que trabalham à noite, que passam por lugares perigosos, que têm medo de voltar sozinhas para casa. O Malandro é o acompanhante invisível que faz o mal encarado recuar.
- Resolução de problemas amorosos: não para trazer o amor de volta à força (isso é outra linha), mas para trazer clareza, para mostrar quem é quem, para dar a força de sair de uma relação tóxica ou para atrair uma pessoa com verdade.
- Sorte nos jogos e negócios: com responsabilidade e limite, o Malandro pode ajudar quem trabalha com jogos, com noite, com entretenimento, com o comércio informal.
Em março de 2023, uma cliente minha — vou chamar ela de Cláudia, mas não é o nome real — chegou ao terreiro com o olho roxo e o corpo tremendo. Ela era vendedora de doces na praia e tinha um ex-namorado que não aceitava o fim. Há dois meses ela dormia na casa da mãe, sem conseguir voltar para o apartamento que pagava com o suor do próprio corpo. A gente fez um trabalho com Zé Pelintra. Não foi um trabalho de dano — foi um trabalho de direito. Ela voltou para casa em uma semana, o ex nunca mais apareceu, e hoje ela tem um quiosque próprio na orla. Ela voltou mês passado, trouxe um bolo, e disse: "Mãe Michele, o Zé falou que eu ia buscar o que era meu. Eu fui."
A pombagira do Malandro: o par que completa o jogo
Na linha de esquerda, poucas coisas são mais poderosas que a parceria entre o Malandro e a Pombagira. Se o Malandro é o movimento esperto, a Pombagira é a sedução que desarma. Juntos, eles formam uma dupla que resolve o que a força não resolve.
Já vi o Malandro e a Pombagira trabalharem juntos em casos de injustiça no trabalho, de assédio moral, de traição que destrói a autoestima. O Malandro mostra o caminho; a Pombagira faz o caminho ser percorrido. É uma dinâmica de energia masculina e feminina que funciona no terreiro como funciona na vida: em parceria.
O ponto de falha: onde as pessoas erram com os Malandros
Tem uma ideia errada que eu gostaria de corrigir. Muita gente acha que o Malandro é "entidade de alegria", que serve só para festa, para samba, para brincadeira. Errado. O Malandro é trabalho sério. Ele pode ser divertido, mas a diversão dele é uma tática. A risada dele é uma arma. Quem chega no terreiro achando que vai fazer um trabalho com o Malandro sem se comprometer, leva um puxão de orelha que dói por semanas.
Outro erro comum: confundir o Malandro com o Cigano. O Cigano é da linha do povo cigano, traz a energia do fogo, da estrada, da mudança. O Malandro é brasileiro de raiz, da terra, do morro, da praia. Eles podem parecer similares, mas a vibração é diferente. O Cigano é mais quente, mais rápido; o Malandro é mais morno, mais lento, mas mais profundo.
Malandros na mesa e no ponto: como reconhecer a presença
Quando o Malandro está na mesa, as coisas têm um jeito. A carta que vira é sempre a que ninguém esperava. A resposta do jogo de búzios é sempre uma frase que faz rir e pensar ao mesmo tempo. A cor predominante é o vermelho, mas não o vermelho do sangue — é o vermelho do tecido do paletó, da cartola, da flor de rosa.
Os oferendas para a falange dos Malandros costumam incluir:
- Bebidas: cerveja, uísque, vinho, champanhe (quando o trabalho é de agradecimento)
- Comidas: feijoada, farofa, linguiça, queijo, amendoim
- Cigarros: sempre de palha ou de cravo, nunca de mentol
- Flores: rosas vermelhas, crisântemos, flores de arruda
- Dinheiro: notas de verdade, não moedas, jogadas na mesa ou no chão do terreiro
A Fundação Cultural Palmares mantém registros de como as oferendas afro-brasileiras são patrimônio cultural e não devem ser confundidas com simples "pagamentos" para entidades — são trocas simbólicas de energia, reconhecidas por antropólogos e historiadores como práticas de resistência cultural.
A citação que não sai da minha cabeça
Como me disse um velho Pai de Santo em Salvador, quando eu ainda tinha medo de incorporar qualquer coisa que não fosse Preto-Velho: "O Malandro não é perigoso. O perigoso é quem não entende a malandragem." Essa frase me acompanha até hoje. O Malandro não vem para destruir — ele vem para mostrar que tem outro jeito de vencer.
Conclusão: a mesa do Malandro e a minha memória
Eu me lembro como se fosse ontem. Era uma sexta-feira de semana cheia, o terreiro estava lotado, e eu estava cansada. Uma menina de 19 anos, primeira vez no terreiro, sentou na frente de mim e disse que queria desistir da faculdade porque não tinha dinheiro para o ônibus. O Malandro incorporou no médium ao meu lado, olhou para ela, e disse: "Filha, o ônibus não vem buscar quem está sentado na parada. O ônibus vem buscar quem está andando na direção dele. Levanta."
Ela levantou. Terminou a faculdade. É médica hoje. E toda vez que vem ao terreiro, ela traz um pacote de bala — porque na primeira vez que ela veio, ela só tinha um pacote de bala para oferecer, e o Malandro aceitou como se fosse champanhe.
A mesa do Malandro não é de luxo. É de verdade. É daqueles que têm pouco e dão muito. É do Brasil que eu conheço e que eu amo.
Axé! 🔥
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre Zé Pelintra e Zé Pilintra?
Zé Pelintra é o chefe da falange dos Malandros, mais sério e estratégico, protetor de mulheres e artistas. Zé Pilintra é seu irmão, mais ligado ao samba e à alegria, trazendo descontração e festa ao terreiro.
O Malandro aceita oferenda de qualquer bebida?
Não. A falange dos Malandros prefere cerveja, uísque, vinho ou champanhe. Bebidas de mentol ou refrigerantes não são apropriados. O cigarro de palha ou de cravo também é parte tradicional da oferenda.
Posso fazer um trabalho com Malandro para resolver problemas na justiça?
Sim. A falange dos Malandros é conhecida por abrir caminhos na justiça, especialmente quando processos estão parados ou advogados não conseguem explicar a demora. A malandragem espiritual desarma o adversário pela esperteza.
O Malandro é uma entidade perigosa para iniciantes?
O Malandro não é perigoso, mas exige respeito. Quem chega achando que é só festa e brincadeira leva um puxão de orelha. A diversão do Malandro é uma tática, a risada é uma arma. O trabalho é sério, mesmo com bom humor.
Qual a relação entre o Malandro e a Pombagira?
Na linha de esquerda, o Malandro e a Pombagira formam uma parceria poderosa. O Malandro mostra o caminho; a Pombagira faz o caminho ser percorrido. Juntos resolvem o que a força não resolve, atuando em casos de injustiça, assédio e traição.
O Malandro trabalha na linha de esquerda ou de direita?
O Malandro trabalha na linha de esquerda, junto com Exú, Pombagira e outras entidades de demanda. Mas sua atuação não é destrutiva — é de abertura de caminhos, proteção e resolução de problemas pela inteligência e malandragem.

