Ogum na Umbanda e no Candomblé: O Guerreiro de Ferro, Dono dos Caminhos
Descubra Ogum, o Orixá guerreiro: dono do ferro e do fogo, protetor dos caminhos, senhor das ferramentas, suas lendas, oferendas e características dos filhos.

Se tem um Orixá que representa a força bruta, a coragem e a determinação de quem nunca desiste, esse Orixá é Ogum. Ele não é o mais sábio. Não é o mais calmo. Mas é, sem dúvida, o mais guerreiro. É o primeiro a entrar na batalha e o último a sair. É quem abre caminhos com a espada, quem forja o ferro em ferramentas, quem protege os fracos e defende os justos.
Na Umbanda e no Candomblé, Ogum é reverenciado como o Orixá da guerra, mas também como o dono dos caminhos, o protetor dos trabalhadores e o senhor das ferramentas. Ele é o Orixá que te empurra para frente quando você quer desistir. É o fogo que aquece a coragem em noites frias de dúvida.
Se você precisa de força para enfrentar algo, seja um processo judicial, uma doença, uma injustiça ou simplesmente a coragem de começar de novo, Ogum é o Orixá que você precisa conhecer.
Quem é Ogum na Mitologia Iorubá
Ogum vem da mitologia iorubá, dos povos do sudoeste da Nigéria. Na África, ele é cultuado como um dos primeiros Orixás a existir — algumas tradições dizem que ele foi o primeiro filho de Aduduá, o fundador do sagrado reino de Ifé. Outras dizem que ele é tão antigo quanto a própria criação do mundo.
O nome Ogum vem da palavra iorubá que significa, literalmente, "guerra". Mas Ogum não é apenas violência. Ele é a força necessária para defender, para conquistar, para abrir caminhos onde não há caminhos. Na mitologia, foi Ogum quem ensinou aos homens a forjar o ferro, a fazer armas e ferramentas. Sem Ogum, não haveria agricultura, não haveria construção, não haveria civilização.
Ogum é descrito como um homem negro forte, de traços marcantes, olhar penetrante e postura imponente. Ele veste-se com roupas de guerreiro, carrega uma espada (ou lança) e é acompanhado pelo som de atabaques em ritmo de ijemá — o toque sagrado de Ogum.
Na mitologia, Ogum teve inúmeras batalhas e conquistas. Ele matou o rei de Irê, apossou-se da cidade e colocou seu filho no trono. Mas, aparentemente cansado da violência, ele abaixou a ponta de seu sabre ao chão e desapareceu. Outra lenda diz que Ogum, após voltar de uma longa ausência, encontrou as portas de sua cidade fechadas porque o povo estava em celebração religiosa. Furioso por ser ignorado, destruiu as portas com sua espada. Depois, arrependido, jurou tornar-se o protetor daqueles que buscam justiça e lutam por um propósito digno.
Ogum na Umbanda: O Guerreiro que Abre Caminhos
Na Umbanda, Ogum é frequentemente associado à quinta linha — uma das linhas de trabalho espiritual que lida com demandas, batalhas, abertura de caminhos e proteção. Quando um médium incorpora Ogum na Umbanda, a energia é intensa, quente, explosiva. A voz fica grossa, os movimentos são rápidos e decisivos. Ogum não perde tempo com conversa fiada.
Ogum na Umbanda é o Orixá que as pessoas chamam quando:
- Precisam abrir caminhos — emprego, negócio, oportunidades
- Estão em demanda judicial — processos, disputas, injustiças
- Precisam de proteção — contra inveja, magia, perseguição espiritual
- Querem força para vencer obstáculos — doenças, dificuldades, bloqueios
- Precisam de coragem — para enfrentar medos, tomar decisões difíceis
A energia de Ogum na Umbanda é mais acessível e prática do que no Candomblé. Ele é o "Orixá do povo" — quem trabalha, quem luta, quem não tem medo de suar. Ogum é o protetor dos motoristas, dos policiais, dos ferreiros, dos soldados, dos trabalhadores braçais. É o Orixá de quem acorda cedo e trabalha até tarde.
Ogum no Candomblé: O Senhor do Ferro e do Fogo
No Candomblé, Ogum é tratado com uma reverência que mistura respeito e um pouco de medo. Ele é um dos Orixás mais poderosos do panteão, e seus rituais são intensos, cheios de fogo, metal e música forte.
Os rituais para Ogum no Candomblé envolvem:
- Ferramentas de ferro — espadas, lanças, ferraduras, martelos
- Atabaques em ritmo de ijemá — o toque sagrado de Ogum
- Comidas de cor escura — feijoada, inhame, àkàsà (bolinho de amido embrulhado em folha de bananeira)
- Danças vigorosas — o médium gira a espada, pula, corta o ar
- Fogo vivo — brasas, tochas, velas vermelhas
No Candomblé, Ogum é sincretizado principalmente com São Jorge — o santo guerreiro que mata o dragão e protege os cristãos. A festa de Ogum é celebrada no dia 23 de abril (dia de São Jorge), e também às terças-feiras, que é o dia da semana consagrado a ele.
As cores de Ogum no Candomblé variam conforme a tradição: azul-marinho, vermelho, branco e verde. Na Umbanda, o vermelho é a cor mais usada.
A Espada de Ogum: Símbolo de Poder e Proteção
O símbolo mais icônico de Ogum é a espada (ou lança). Ela representa:
- O poder de cortar obstáculos — Ogum abre caminhos literalmente
- A proteção contra inimigos — visíveis e invisíveis
- A justiça que defende os fracos — Ogum é o guerreiro dos justos
- A determinação inquebrável — a espada não se curva, não quebra
Não se brinca com a espada de Ogum. Em rituais, ela é brandida com respeito absoluto. Fora dos rituais, ela é guardada como objeto sagrado. Dizem que a espada de Ogum não corta apenas carne — corta também energias negativas, invejas, bloqueios espirituais.
As Cores de Ogum: Vermelho, Azul, Branco e Verde
As cores de Ogum variam conforme a tradição:
- Vermelho (Umbanda) — fogo, sangue, guerra, paixão, força
- Azul-marinho (Candomblé) — profundidade, caminhos, estradas, proteção
- Branco — pureza intenção, clareza de propósito
- Verde — natureza, matas, crescimento, renovação
Juntas, essas cores formam a imagem do guerreiro completo: aquele que luta com força (vermelho), mas com um propósito profundo (azul), intenção pura (branco) e conexão com a terra (verde).
Oferendas para Ogum: O Que Fortalece o Guerreiro
Ogum é um Orixá que aprecia comida de verdade, de peso, de sustância. As oferendas para ele são sempre generosas, nunca mesquinhas. Ogum é guerreiro, e guerreiros comem muito.
Comidas tradicionais:
- Feijoada — o prato mais tradicional de Ogum, completa, bem temperada
- Inhame cozido — pilado ou em pedaços
- Milho cozido — amarelo, bem cozido
- Àkàsà — bolinho de amido embrulhado em folha de bananeira
- Feijão-cavalo — cozido com carne de boi
- Bife de carne bovina — grelhado ou cozido
- Cachorro — em algumas tradições, oferecido em rituais maiores
- Caramujos — tradicionais em oferendas africanas
Bebidas:
- Cachaça — de boa qualidade, transparente
- Cerveja — preta ou normal
- Vinho tinto — seco, encorpado
- Água — sempre presente, para limpar e purificar
Outras oferendas:
- Velas vermelhas — grossas, que queimam por horas
- Ferraduras — símbolo de proteção e sorte
- Ferramentas de ferro — martelos, enxadas, foices (novas)
- Charutos — Ogum aprecia fumaça
- Roupas de marinheiro — em algumas tradições, Ogum veste azul de marinheiro
- Espadas ou facas de metal — símbolos de seu poder
Como oferecer: As comidas são dispostas em pratos grandes, em quantidade generosa. A oferenda é feita em local limpo, preferencialmente próximo a uma encruzilhada, estrada, trilho de trem ou lugar de passagem. Depois de oferecida, a comida não deve ser comida — pertence ao Orixá.
Características dos Filhos de Ogum
Os filhos de Ogum — aqueles que têm ele como Orixá de cabeça — carregam a energia do pai em tudo que fazem. Eles são facilmente reconhecidos, mesmo que não saibam de sua origem espiritual.
Fisicamente:
- Corpo forte, musculoso ou com boa constituição
- Olhar intenso, olhos que parecem furar
- Postura ereta, como um soldado
- Tendência a ter força física acima da média
Personalidade:
- Impulsivos e diretos — falam o que pensam, sem rodeios
- Briguentos — se irritam facilmente, especialmente com injustiças
- Destemidos — enfrentam adversidades de peito aberto
- Trabalhadores — gostam de trabalhar, de produzir, de conquistar com esforço
- Determinados — quando querem algo, não desistem fácil
- Leais — protegem os amigos e família com unhas e dentes
- Opiniões fortes — têm convicções claras e defendem até o fim
- Imediatistas — preferem ação a conversa
Desafios:
- Tendência a serem violentos ou agressivos quando provocados
- Dificuldade em perdoar — guardam rancor por muito tempo
- Impaciência — querem resultados rápidos
- Teimosia — quando decidem algo, raramente mudam
- Podem ser vistos como "brigões" ou "difíceis"
O Dia de Ogum: Terça-Feira
A terça-feira é o dia consagrado a Ogum. É o dia em que se acendem velas vermelhas, se oferecem feijoadas, se pede força e proteção. A terça-feira de Ogum é um dia de ação, de coragem, de enfrentar o que precisa ser enfrentado.
Se você tem um desafio pela frente, terça-feira é o melhor dia para:
- Fazer oferendas a Ogum
- Iniciar projetos difíceis
- Ter conversas que exigem firmeza
- Pedir proteção para viagens
- Pedir coragem para enfrentar medos
Ogum e os Caminhos: O Dono das Estradas
Ogum não é apenas guerra. Ele é também caminhos. Na mitologia, foi Ogum quem abriu os primeiros caminhos na terra com sua espada de metal. Sem Ogum, não haveria estradas, não haveria comércio, não haveria comunicação entre povos.
Por isso, Ogum é reverenciado como o protetor dos:
- Motoristas e caminhoneiros — que passam dias nas estradas
- Viajantes — que precisam de proteção nos caminhos
- Comerciantes — que dependem das estradas para levar mercadorias
- Trabalhadores — que saem cedo e voltam tarde
- Policiais e militares — que protegem com suas vidas
Quando você passa por uma encruzilhada e joga água no chão, está homenageando Ogum. Quando deixa uma oferenda na beira da estrada, está pedindo proteção para seus caminhos. Ogum é o Orixá que garante que você chegue ao seu destino — física e espiritualmente.
Ogum na Cultura Brasileira
A influência de Ogum vai muito além dos terreiros. Ele está presente na cultura brasileira de formas que muitas vezes passam despercebidas:
- No samba e na música popular — os toques de ijemá são usados em diversos ritmos
- Nas festas juninas — Ogum é associado às fogueiras e às festas de São João
- Na política — líderes que "abrem caminhos" frequentemente têm energia de Ogum
- No cotidiano — quando alguém diz "vou fazer uma força bruta", está canalizando Ogum
- No sincretismo — a devoção a São Jorge é, na verdade, a devoção a Ogum disfarçada
A expressão "Ogunhê!" é a saudação a Ogum. Dizer isso é reconhecer a força dele, é afirmar que você também é guerreiro, é pedir proteção nos caminhos.
Conclusão
Ogum não é um Orixá para covardes. Ele é para quem está disposto a lutar — por justiça, por família, por sonhos, por dignidade. Ele não promete caminhos fáceis. Mas promete caminhos abertos para quem tem coragem de seguir.
Se você precisa de força, de proteção, de coragem para enfrentar o que está por vir, Ogum é o Orixá que você precisa conhecer. Ele é o guerreiro ancestral que carrega a espada, mas também é o pai protetor que nunca abandona um filho seu.
Que a força de Ogum abra seus caminhos e proteja sua jornada. Ogunhê!

