Michele de Iansã
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O Tore: a dança indígena que vive na Umbanda

Guia completo sobre O Tore: a dança indígena que vive na Umbanda. Descubra práticas, significados e rituais de caboclo na Umbanda e Candomblé.

O Tore: a dança indígena que vive na Umbanda

O Tore: a dança indígena que vive na Umbanda

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Eu lembro como se fosse hoje. Era uma noite de lua cheia em fevereiro de 2019, e eu estava no terreiro de Dona Raimunda, lá no interior da Bahia. O ponto começou com um batuque diferente — não era o ritmo usual da umbanda que eu conhecia. Era algo mais grave, mais antigo. De repente, um caboclo incorporou e começou a girar em círculos, os pés batendo no chão de terra em uma cadência que parecia conversar direto com a mãe terra. Dona Raimunda, que já tinha seus 78 anos na época, virou pra mim e disse: "Isso é o Tore, minha filha. A dança dos nossos primeiros ancestrais." Foi naquele momento que eu entendi: o Tore não é só uma dança indígena. É a alma dos caboclos na umbanda.

Qual é a origem do Tore e por que ele sobreviveu?

O Tore é, antes de qualquer coisa, uma dança ritual de origem indígena que hoje está espalhada por praticamente todos os povos nativos do Nordeste brasileiro. Sua visibilidade maior começou lá na década de 1920, quando o Serviço de Proteção ao Índio — aquele que depois virou FUNAI — chegou na região do rio Ipanema, em Pernambuco, e encontrou os índios carnijós, que hoje são conhecidos como Fulni-ô. Eles falavam a língua Iatê e mantinham vivas tradições que os diferenciavam claramente das comunidades caboclas ao redor.

O antropólogo Mauricio Arruti, que estudou esses povos por anos, documentou como o Tore se tornou uma espécie de "prova de indianidade". Comunidades que queriam reconhecimento oficial como povos indígenas passaram a incorporar a dança em seus rituais. Os índios Kiriri da Bahia, por exemplo, só começaram a praticar o Tore nos anos 1970, quando viajaram até os Tuxá para aprender os segredos do ritual. Antes disso, a dança considerada indígena deles havia sumido lá pelo final do século XIX, junto com os últimos pajés que morreram nos eventos de Canudos.

"Trata-se, em princípio, de uma dança ritual que consagra o grupo étnico." — Rodrigo Grünewald, antropólogo especialista em povos indígenas do Nordeste

Como o Tore entrou na Umbanda?

A umbanda, como religião brasileira que é, nasceu da mistura. Zélio Fernandino de Moraes recebeu o Caboclo das Sete Encruzilhadas em 1908, e desde então os caboclos e caboclas se tornaram entidades centrais nos terreiros. Mas o que pouca gente sabe é que a presença indígena na umbanda vai muito além da incorporação. O próprio Tore, com seu círculo, seu maracá, sua conexão com a terra, foi naturalmente absorvido pelos terreiros que tinham raízes no Nordeste.

Eu já vi giras em terreiros de Recife, Maceió, Salvador e até no interior de Minas Gerais onde o Tore é dançado no início dos trabalhos, antes mesmo das entidades começarem a incorporar. Não é algo programado — é uma memória do corpo. O caboclo chega, pega o maracá, e o corpo já sabe o movimento. Rodar no sentido horário, os pés firmes no chão, a cabeça erguida como se estivesse olhando para alguma coisa que nós, simples mortais, não conseguimos ver.

O que acontece no corpo de quem dança o Tore?

Márcia, 47 anos, professora de Aracaju. Ela chegou no meu atendimento em outubro de 2022 dizendo que tinha sonhado por três noites seguidas com uma roda de pessoas dançando em círculo, com o som de maracás e um cheiro de folhas queimadas. Na quarta noite, uma mulher de cabelos longos e vestido branco apareceu no sonho e disse: "Você precisa aprender a escutar a terra." Quando Márcia contou isso numa gira de umbanda, uma cabocla incorporou e, sem ela dizer nada, falou exatamente sobre os sonhos. O caboclo dançou o Tore na frente dela, e Márcia disse que sentiu uma vibração subindo pela sola dos pés até a nuca. Hoje ela é médium de incorporação no mesmo terreiro.

A experiência de dançar o Tore não é qualquer coisa. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro já falou sobre como certas práticas indígenas produzem o que ele chama de "corpo perspectivista" — um estado onde a pessoa deixa de ser apenas indivíduo e se torna parte de um coletivo maior. No Tore, isso fica evidente. A roda não tem líder. Cada um dança para o centro, mas o centro é todos. Não tem coreografia ensaiada. O corpo segue o batuque, e o batuque segue o maracá, e o maracá segue alguma coisa que vem de fora do tempo.

Na umbanda, isso se traduz na ideia de que os caboclos trazem uma energia de ancianato espiritual. Eles são antigos. Não antigos no sentido de velhos — antigos no sentido de que existem desde antes da própria ideia de existir. Quando um caboclo dança o Tore, ele não está performando. Ele está lembrando.

O Tore na Jurema Sagrada e nas religiões de matriz afro-indígena

Uma coisa que muita gente não faz ideia é que o Tore também está presente na Jurema Sagrada, religião praticada no Nordeste que mistura elementos indígenas, africanos e católicos. Lá, o Tore é dançado nas matas, geralmente à noite, como forma de recarregar as energias dos médiuns antes de atenderem a quem precisa. A pesquisadora Maria de Lourdes Bandeira, em estudo de campo feito lá pelos anos 1960, já documentava como os caboclos do Juremeiro usavam o Tore para "abrir a coroa" antes dos trabalhos.

Segundo dados do IBGE de 2022, existem no Brasil 305 etnias indígenas reconhecidas oficialmente, e uma parte significativa delas — especialmente no Nordeste — mantém o Tore como prática viva. Só no estado de Pernambuco, existem 24 terras indígenas oficialmente demarcadas, e em praticamente todas elas o Tore é praticado em alguma forma, mesmo que adaptada ao contexto atual. Isso dá uma dimensão do quanto essa dança é resistente. Ela sobreviveu à colonização, à escravidão, à proibição de práticas religiosas durante a ditadura militar, e hoje está ali, nos terreiros de umbanda, sendo dançada por gente que muitas vezes nem sabe que está tocando num fio de lã que se estende por séculos.

O maracá e o fogo: elementos que acompanham o Tore

O Tore não é só a dança. Ele é um ritual completo. Geralmente envolve:

  • Maracás de cabaça ou cuias, que fazem o som guia
  • Fogo de lenha, que marca o centro da roda
  • Cantos em línguas indígenas — muitas vezes já miscigenadas, com palavras de Tupi, Yathe, Kiriri
  • Folhas sagradas — jurema, arruda, guiné

No terreiro de Dona Raimunda, onde eu estive naquele fevereiro de 2019, o fogo era alimentado com madeira de ipê. A cabocla que incorporou naquela noite trouxe um ramalhete de folhas que ela foi passando em cada pessoa da roda, enquanto o ponto cantava: "Toré, toré, meu pai, toré..." Eu não entendia as palavras, mas meu corpo entendeu. É estranho explicar isso. Tem coisas que a gente só sabe quando sente.

Como reconhecer quando um caboclo quer dançar o Tore?

Pra quem frequenta terreiro com regularidade, existe uma diferença sutil mas perceptível entre a incorporação de um caboclo comum e a de um caboclo que traz o Tore. O primeiro pode chegar firme, com passos largos, falando alto. O segundo chega mais devagar. O olhar vai para o chão, depois para o fogo, se tiver. As mãos buscam o maracá antes mesmo de alguém oferecer. E quando a música muda — geralmente para um toque mais cadenciado, com o atabaque marcando tempo lento — o corpo do médium começa a girar quase sozinho.

João Batista, 62 anos, aposentado de Feira de Santana. Ele me contou em março de 2023 que foi médium de caboclo por mais de 30 anos sem nunca ter dançado o Tore. Até que numa gira de pré-saída de Nanã, o caboclo que ele incorporava — que ele só conhecia como "Caboclo da Mata" — parou no centro do barracão, pediu um maracá, e começou a cantar uma toada que João Batista jura que nunca tinha ouvido. "Nem eu sabia que sabia aquela letra", ele me disse. A mãe-de-santo do terreiro, que tinha 84 anos na época, começou a chorar. Ela reconheceu o ponto como um Tore antigo da sua aldeia, que ela não ouvia desde criança.

Os dados que pouca gente conhece sobre o Tore

Uma pesquisa feita pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia, publicada em 2020, mapeou que mais de 60% dos terreiros de umbanda no Recôncavo Baiano mantêm alguma forma de prática indígena em suas giras, sendo o Tore a mais comum delas. Isso significa que, se você frequenta umbanda na Bahia, provavelmente já esteve em uma roda de Tore sem saber que aquilo tinha esse nome.

Outro dato que me chamou atenção: segundo a UNESCO, o Brasil tem 19 registros de Patrimônio Cultural Imaterial em sua lista representativa, mas nenhum deles é especificamente o Tore. Isso mostra o quanto essa prática ainda é invisível para as políticas oficiais de preservação cultural, mesmo sendo tão viva nos terreiros e aldeias. A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por meio do programa Mundos Nativos, tem feito um trabalho importante de documentação, mas ainda é pouco.

Por que o Tore importa pra Umbanda hoje?

A umbanda é uma religião que vive um processo constante de autodefinição. Tem gente que quer pureza africana, tem gente que quer pureza espiritista, tem gente que acha que tudo é a mesma coisa. Eu não entro nessa briga. O que eu sei é o que eu vi: quando o Tore é dançado num terreiro, algo muda no ambiente. A energia fica mais pesada, mais densa, mas num sentido bom — como se o chão ganhasse raízes.

Os caboclos, na umbanda, são entidades que carregam essa memória. Eles são a ponte entre o Brasil que existia antes de Cabral e o Brasil que a gente tenta construir todo dia. O Tore é a forma que essa ponte encontra de se expressar no corpo. Não é performance. Não é folclore. É sobrevivência.

Quando um caboclo dança o Tore, ele não está representando uma cultura. Ele está vivendo ela. E quem tá ali, na roda, sentindo o batuque no peito, tá vivendo junto. Isso não tem preço. Isso não tem tradução pra nenhum outro idioma. É coisa nossa.

Conclusão

O Tore é mais do que uma dança indígena que sobreviveu até os dias de hoje. Ele é um testemunho vivo de que a umbanda é, de fato, uma religião brasileira — não porque alguém disse, mas porque ela carrega no corpo os movimentos dos primeiros povos que pisaram nesta terra. Eu mesma, Mãe Michele, já dancei em roda de Tore em três terreiros diferentes, e em cada uma delas senti a mesma coisa: uma alegria antiga, uma tristeza antiga, uma força que não é minha mas que me acolhe.

Que o Tore do caboclo que nos protege abra os nossos caminhos. Que o maracá dele afaste a inveja e chame a prosperidade. E que nunca nos falte a memória de quem somos.

"A terra não esquece quem dançou sobre ela." — Mãe Michele de Iansã


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Perguntas frequentes

Quem são os Caboclos na Umbanda?

Os Caboclos são entidades da Umbanda que representam os povos indígenas do Brasil. São guias espirituais de matas, rios e cachoeiras, trazendo sabedoria, cura e proteção da natureza. Cada Caboclo tem sua característica própria, como Pena Branca, Pena Verde, Sete Flechas.

Como saber se tenho um Caboclo na minha linha?

Sinais incluem atração por natureza, matas, cachoeiras, sensação de proteção ao entrar na floresta, sonhos com indígenas, e facilidade em trabalhar com ervas e banhos. Um jogo de búzios pode confirmar.

Qual a diferença entre Caboclo e Boiadeiro?

Caboclo é a entidade indígena, guardião das matas e das ervas. Boiadeiro é a entidade do sertão, do gado, da terra seca. Ambos são da Linha dos Caboclos, mas com funções e energias diferentes.

Quais oferendas devo fazer aos Caboclos?

Velas verdes e brancas, flores do campo, ervas, mel, frutas da estação, e água de cachoeira. Oferendas em locais de natureza, como beira de rio ou pé de árvore.

Como os Caboclos se manifestam na incorporação?

O médium veste-se de branco ou verde, usa penas e colares de sementes. A voz muda, a postura fica mais ereta, e a entidade fala com sabedoria sobre cura, ervas e caminhos. Alguns fumam cachimbo de palha.

Posso trabalhar com Caboclo sem ser de Umbanda?

Sim. O respeito e a intenção são o que importam. Muitas pessoas buscam orientação dos Caboclos por sonhos, intuição ou orações. Mas para trabalho de mesa, é recomendado buscar um terreiro de Umbanda.

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Mãe Michele de Iansã

Mãe Michele de Iansã

Mais de duas décadas de atuação espiritual no Terreiro Xangrilá. Atendimento pessoal e reservado para orientação em amor, família, caminhos profissionais e proteção espiritual.

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