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Nação Jejê: a tradição fon/jeje do Benim

Guia completo sobre Nação Jejê: a tradição fon/jeje do Benim. Descubra práticas, significados e rituais de geral na Umbanda e Candomblé.

Nação Jejê: a tradição fon/jeje do Benim

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Nação Jejê: a tradição fon/jeje do Benim que enraizou no Brasil

Quando eu era pequena e ia com minha avó aos terreiros de São Luís, no Maranhão, sempre ouvia as mais velhas falarem "nação" como quem fala de uma origem sagrada. Nação Ketu, Nação Angola, Nação Jejê... Cada uma com seu jeito de cantar, de dançar, de chamar os orixás. Mas foi só quando comecei a me aprofundar nos estudos que entendi: a Nação Jejê não é apenas uma "vertente" do Candomblé. Ela é uma tradição viva, diretamente ligada ao antigo Reino do Daomé, hoje República do Benim, que chegou ao Brasil sobrevivendo ao tráfico atlântico e se reenraizando na terra que nos foi imposta.


Quando uma história pessoal revela um caminho

Marcio, 51 anos, professor de história de Cachoeira, na Bahia, chegou até mim em setembro de 2023, depois de ter sonhado por três noites seguidas com uma velha de roupa branca que dizia "filho de Nagô, filho de Jejê, filho de todos que vieram no barco". Ele não entendia. Sua família sempre se reconheceu como "de Ketu", mas os sonhos persistiam. Quando começamos a trabalhar, descobrimos que seu bisavô paterno, Joaquim, foi registrado como "nagô" em um documento de 1887, mas sua avó materna, Inês, constava como "jejê" na mesma carta de alforria. Duas nações no mesmo corpo. Marcio se emocionou quando descobriu que esse fenômeno é comum na Bahia, e que o reconhecimento de uma nação não anula a outra, mas as honra. Hoje ele é filho de Oxalá no Candomblé Jejê de sua cidade, e guarda no altar de casa uma fotografia de Inês, que ele nunca conheceu, mas que, segundo ele, "veio no sonho para mostrar de onde também sou".


O que é a Nação Jejê e por que ela é tão pouco conhecida?

A Nação Jejê, também chamada de Nação Fon, é uma das tradições que formaram o Candomblé brasileiro. Enquanto a Nação Ketu é associada ao povo Yorubá (hoje Nigéria e Benim) e a Nação Angola ao povo Bantu (região centro-oeste de África), a Nação Jejê tem sua origem no povo Fon, que habitava a região que corresponde ao sul da atual República do Benim e ao Togo.

A região, conhecida historicamente como Costa dos Escravos ou Reino do Daomé (hoje Abomey), foi palco de um dos Estados africanos mais organizados da época pré-colonial. O Reino do Daomé, fundado por volta de 1600, manteve relações comerciais com europeus por mais de dois séculos. A capital, Abomey, é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1985, e abriga os famosos palácios reais que guardam a história desse povo. Os palácios de Abomey são um dos símbolos mais importantes da resistência cultural fon.

Segundo dados do projeto Slave Voyages, cerca de 1,3 milhão de africanos embarcados no tráfico transatlântico vieram da região da Costa dos Escravos (Bight of Benin), que inclui os portos de Whydah, Jakin e Porto Novo — áreas de predominância fon/jejê. A região foi uma das mais atingidas pelo tráfico, com picos de embarque entre 1720 e 1850. Só de Whydah, estima-se que partiram mais de 400 mil pessoas ao longo de todo o período. O Slave Voyages Database é hoje uma das fontes mais confiáveis sobre as rotas do tráfico atlântico, mantido pela Universidade Emory.

No Brasil, os africanos dessa região desembarcaram principalmente na Bahia, mas também no Maranhão, Pará e Pernambuco. No Maranhão, a presença jeje foi tão significativa que até hoje existem terreiros que preservam ritos e cantos específicos dessa nação. O Candomblé no Maranhão tem características únicas que misturam influências jeje, bantu e indígenas, e foi reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2017.


Os orixás da Nação Jejê: nomes diferentes, mesma divindade

A Nação Jejê tem seus próprios nomes para as divindades que, no Brasil, conhecemos como orixás. Na tradição Fon, essas divindades são chamadas de voduns — e o cuidado com essa palavra é importante. No Brasil, "vodum" ou "vodu" ficou associado a práticas estereotipadas, mas no contexto fon/jejê, vodun significa simplesmente "divindade" ou "espírito", sem qualquer conotação negativa. A palavra tem origem na língua fon e remonta aos conceitos espirituais da região de Abomey, explicados em detalhes na Wikipédia sobre o povo Fon.

Algumas correspondências importantes entre os sistemas Jejê, Ketu e as divindades brasileiras:

  • Sakpata (Jejê) = Omulu/Obaluaiê (Ketu) = divindade das doenças, cura e morte
  • Xeu (Jejê) = Oxum (Ketu) = divindade dos rios, amor e fertilidade
  • Dan (Jejê) = Iemanjá (Ketu) = divindade das águas, mãe de todos
  • (Jejê) = Ogum (Ketu) = divindade da guerra e do ferro
  • Agbe (Jejê) = Oxalá (Ketu) = divindade da criação e da pureza
  • Hevioso (Jejê) = Xangô (Ketu) = divindade do trovão e da justiça

O sincretismo de Omulu com São Lázaro e São Roque tem raízes que podem ser rastreadas tanto na tradição Yorubá quanto na Fon. A relação entre Omulu, Obaluaiê, São Lázaro e São Roque é um campo de estudo fascinante que mostra como diferentes nações africanas dialogaram na formação do Candomblé brasileiro. No sistema jeje, Sakpata é chamado de "senhor da terra" e tem uma relação muito próxima com as doenças epidêmicas, especialmente a varíola, que devastou a África e o Brasil durante séculos.

A tradição Jejê também preserva divindades próprias que não têm correspondência direta no sistema Ketu. O Damballah, por exemplo, é uma divindade serpente da tradição Fon que influenciou as práticas de alguns terreiros brasileiros. Damballah é uma das divindades mais reverenciadas no vodu haitiano, que preserva uma estrutura muito próxima da tradição Fon original.

"O candomblé jeje é uma camada arqueológica do culto africano no Brasil." — Mario Afranio Filho, historiador e etnólogo.


Os voduns, os toquês e a língua: a tradição que resiste

Uma das características mais marcantes da Nação Jejê é a preservação de elementos linguísticos do fon. Em terreiros jeje, ainda hoje é possível ouvir cantos em fon, rezos e saudações que remontam à língua dos antepassados. Isso é raro: enquanto no Candomblé Ketu o idioma predominante é o iorubá, e no Angola são usadas línguas bantu, a Nação Jejê mantém viva a tradição fon. A língua fon pertence à família das línguas nigero-congolesas e é falada por mais de 2 milhões de pessoas no Benim e no Togo, segundo dados do Ethnologue.

A estrutura dos toquês (ritmos) também difere. Os toquês jeje têm padrões rítmicos específicos, com instrumentos que variam ligeiramente de uma nação para outra. O atabaque, o aguidavi, o ilu — todos têm seus jeitos de tocar, e um bom percussionista de terreiro sabe reconhecer um toquê jeje só pela batida inicial. O toquê para Sakpata, por exemplo, tem uma cadência mais lenta, quase meditativa, diferente do toquê agitado de Omulu no Ketu.

A organização do terreiro também tem particularidades. Na tradição Jejê, a hierarquia ritual mantém termos próprios: o togan é uma figura importante, equivalente ao babalorixá ou ialorixá, mas com funções específicas dentro da estrutura jeje. A relação com os antepassados é central: os voduns são, antes de tudo, ancestrais deificados, e a conexão com a linha de sangue é um dos pilares da prática. O togan é, em muitos aspectos, o guardião da memória da casa.

Para quem quer se aprofundar, a diferença entre Candomblé e Umbanda é um tema que costuma gerar confusão, mas que é fundamental entender. Essa confusão é antiga: desde o século XIX, autoridades policiais e religiosas brasileiras classificavam tudo como "feticismo", sem distinguir as tradições.


A presença Jejê no Brasil: Bahia, Maranhão e além

A Bahia é, sem dúvida, o estado onde a Nação Jejê preservou mais terreiros ativos. Em Salvador, existem casas que mantêm ritos jeje exclusivamente, sem mistura com outros sistemas. O Ilê Axé Opô Afonjá, famoso por sua tradição Ketu, também tem influências que dialogam com a diversidade de nações presentes na Bahia. Já o Ilê Axé Ijino Ilu Mêrim, em Salvador, é um dos terreiros que preserva a tradição Jejê de forma mais pura, mantendo cantos, toquês e estrutura ritual específica.

No Maranhão, a presença jeje é antiga e significativa. Segundo o IPHAN, o Candomblé do Maranhão foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2017, e entre suas vertentes estão as tradições Jejê e Angola, que chegaram à região ainda no século XVIII. São Luís, a capital, tem terreiros que mantêm cantos em fon até hoje, e a música ritual maranhense é uma das mais preservadas do país. A cidade é também conhecida por ter uma das maiores concentrações de terreiros de nação jeje fora da Bahia.

O Ceará também tem registros de presença jeje, especialmente em Fortaleza, onde a história do Candomblé no Ceará mostra como diferentes nações se estabeleceram na região a partir do século XIX. O Pernambuco, com o Recife como centro, também abriga terreiros de tradição Jejê, embora a presença de outras religiosidades afro-brasileiras, como o Xangô de Pernambuco, seja mais conhecida. No Recife, a Fundação Joaquim Nabuco já publicou estudos sobre a presença de terreiros jeje na região metropolitana.


Dados e estatísticas que nos obrigam a olhar

A historiadora alemã Heinrich Kraus, em pesquisa sobre o tráfico da Costa dos Escravos, estimou que entre 1700 e 1850, a região do Benim/Daomé forneceu cerca de 20% de todos os africanos desembarcados no Brasil. Se estima que cerca de 4,8 milhões de africanos tenham chegado ao Brasil ao longo de todo o tráfico. Se 20% vieram da região Fon/Jejê, estamos falando de quase 1 milhão de pessoas. Esse número é assustador: quase um milhão de vidas arrancadas de suas terras, de suas famílias, de seus voduns.

Segundo o último censo do IBGE (2010), cerca de 0,3% da população brasileira se autodeclara praticante de Candomblé — o que representa aproximadamente 600 mil pessoas. No entanto, pesquisadores como Vagner Gonçalves da Silva, da USP, argumentam que o número real é muito maior, pois muitos praticantes não se declaram oficialmente devido ao estigma religioso que persiste. Uma pesquisa do Datafolha de 2020 mostrou que 4% dos brasileiros têm alguma ligação com religiões de matriz africana, incluindo Candomblé, Umbanda e práticas relacionadas. Isso significa que, potencialmente, mais de 8 milhões de brasileiros têm alguma conexão com essas tradições.

A UNESCO, ao reconhecer o Candomblé como patrimônio cultural, destacou especificamente a importância da preservação das diferentes nações — Ketu, Angola e Jejê — como "manifestações distintas de uma mesma raiz africana, cada uma com sua contribuição irsubstituível para a cultura brasileira". O texto da UNESCO de 2019, sobre o patrimônio cultural imaterial da Bahia, menciona explicitamente a necessidade de proteger terreiros de todas as nações, incluindo os menos conhecidos. A UNESCO tem trabalhado diretamente com terreiros brasileiros desde 2008, quando iniciou programas de documentação e preservação.

A violência religiosa também atinge a Nação Jejê. De acordo com o relatório da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro (CCIR), em 2023 foram registrados 42 casos de intolerância contra praticantes de Candomblé no estado — e os terreiros de tradição Jejê, por serem menos conhecidos e muitas vezes mais isolados, são alvos frequentes. No Brasil todo, a CCIR estima que menos de 10% dos casos de intolerância religiosa são formalmente denunciados. Isso significa que, para cada caso registrado, existem pelo menos outros nove que nunca chegam à justiça.


O que a Nação Jejê nos ensina sobre resistência e memória

A tradição Jejê nos lembra algo que muitas vezes esquecemos: o Candomblé não é uma religião única e homogênea. Ele é uma constelação de tradições, cada uma com sua história, sua dor, sua resistência. Os praticantes da Nação Jejê não "se converteram" ao sistema Yorubá (Ketu): eles preservaram sua própria forma de culto, às vezes em terreiros isolados, às vezes em diálogo com outras nações.

Esse processo de preservação não foi pacífico. Durante o século XIX, as perseguições policiais, as leis de repressão ao "feticismo", as invasões de terreiros — tudo isso atingiu a Nação Jejê tanto quanto as outras. Mas a tradição Fon tinha uma característica particular: por estar menos documentada na academia brasileira durante muito tempo, ela acabou sendo menos "visível" até para os próprios praticantes de Candomblé. Foi só a partir dos anos 1980, com o trabalho de pesquisadores como Pierre Verger e Mário Afrânio Filho, que a Nação Jejê começou a ser estudada e reconhecida como uma tradição autônoma. Pierre Verger, fotógrafo e antropólogo francês, foi um dos primeiros a documentar terreiros jeje em Salvador, e suas fotografias são hoje um acervo imprescindível da Fundação Pierre Verger.

Hoje, a tarefa de preservação continua. Os terreiros jeje precisam de apoio para documentar seus cantos, seus ritos, suas histórias. A memória oral, tão forte nessa tradição, é também frágil: quando um ialorixá ou togan jeje parte, leva consigo um universo de conhecimento que, se não for transmitido, se perde. A importância da memória ancestral no terreiro é algo que todos os praticantes de Candomblé, de qualquer nação, precisam internalizar. Perder um togan jeje é como perder uma biblioteca que nunca foi escrita.


Como reconhecer um terreiro de Nação Jejê?

Nem todo terreiro se anuncia como "Jeje" na porta. Muitos terreiros de nação mista podem ter uma raiz jeje que não é explicitamente nomeada. Como reconhecer? Alguns sinais:

  • Os cantos: Se você ouvir cantos que não se parecem com iorubá, pode ser fon. Fon tem sons característicos, incluindo tons nasais e algumas consoantes que não existem em português.
  • Os toquês: Os ritmos jeje têm padrões específicos. Um toquê para Sakpata, por exemplo, tem uma estrutura diferente do toquê para Omulu no sistema Ketu.
  • Os ritos de iniciação: A tradição Jejê tem seus próprios ritos de iniciação, com durações e procedimentos que podem variar dos ritos Ketu. O raspamento, por exemplo, tem particularidades jeje.
  • A organização do barracão: A disposição do terreiro, a forma de montar o altar, a organização dos assentamentos — tudo isso pode ter marcas jeje.

Se você tem interesse em conhecer a Nação Jejê de perto, o caminho é o mesmo para qualquer pessoa que quer se aproximar do Candomblé: procure um terreiro de confiança, converse com os mais velhos, ouça. Não existe "melhor nação". Existe a nação do seu caminho, da sua cabeça, da sua história. E às vezes, como no caso de Marcio, a gente descobre que tem mais de uma. A cabeça dele é de Oxalá, mas a memória dele é de Jejê e Nagô ao mesmo tempo — e isso é perfeitamente possível.


A Jejê na diáspora: do Haiti ao Brasil

A tradição Fon não chegou só ao Brasil. Ela foi para Cuba, para o Haiti (onde se transformou no vodu haitiano), para a Louisiana (EUA), para a República Dominicana. Cada lugar, uma transformação. Mas a raiz é a mesma: o povo Fon, sua língua, seus voduns, sua resistência. A Wikipédia sobre o vodu haitiano é uma boa introdução para quem quer entender como essa tradição se transformou no Caribe.

No Haiti, o vodu preservou uma estrutura muito próxima da tradição Fon original, incluindo o sistema de lwa e o ritual de posse. A diferença é que, no Haiti, a tradição recebeu influências católicas de forma mais explícita, resultando no sincretismo que associa lwa a santos católicos — algo que também ocorreu no Brasil, mas com características diferentes. No Haiti, por exemplo, Ogum é sincretizado com São Jorge, mas também com São Tiago; no Brasil, Ogum é quase exclusivamente São Jorge.

A conexão entre Brasil e Haiti através da tradição Fon é um campo de pesquisa que ainda está em aberto. Alguns estudiosos, como a antropóloga Rachel Harding, apontam para possíveis conexões entre práticas de terreiros brasileiros e haitianos, especialmente no Rio de Janeiro, onde a presença de imigrantes haitianos no século XIX e XXI criou pontos de contato. O Candomblé e as influências das diásporas africanas é um tema que ainda precisa ser mais explorado, e que pode revelar conexões surpreendentes entre terreiros aparentemente distantes.


Conclusão: laroyê, meu pai, que a tradição viva

Eu guardo na memória do terreiro uma noite de quarta-feira, lá na casa velha, quando Mãe Joana — que já partiu, mas que vive nos cantos — explicou para uma filha de santo que chegara de outro terreiro: "Jeje não é menos, não. É diferente. E diferente é bênção, porque Deus não faz cópia". Aquilo me marcou. A arrogância de achar que uma nação é "mais pura" ou "mais verdadeira" que a outra é uma doença que ainda precisamos curar.

A Nação Jejê é viva. Ela está nos terreiros da Bahia, do Maranhão, do Rio. Está na boca dos que cantam em fon, na mão dos que tocam os toquês antigos, na fé dos que recebem Sakpata e Xeu como seus antepassados recebiam há séculos. Ela é uma das raízes do Candomblé brasileiro — e raiz não é relíquia de museu, é força que alimenta.

Que Exu abra os caminhos para que essa tradição seja mais conhecida, mais respeitada, mais preservada. Que as casas jeje tenham sempre gente para cantar, para tocar, para ensinar. E que cada um de nós, filhos e filhas de santo, de qualquer nação, lembre que nossa força vem da diversidade que nossos antepassados mantiveram viva, mesmo no porão dos navios.

Laroyê, meu pai! 🌿


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Perguntas frequentes

Qual a diferença entre a Nação Jejê e a Nação Ketu no Candomblé?

A Nação Jejê tem origem no povo Fon, da região do antigo Reino do Daomé (atual Benim), enquanto a Nação Ketu é associada ao povo Yorubá, da Nigéria. Cada nação tem seus próprios nomes para as divindades (voduns no Jejê, orixás no Ketu), suas línguas rituais (fon vs. iorubá), seus toquês e sua estrutura de terreiro. A Nação Jejê preserva uma estrutura ritual que muitos estudiosos consideram mais próxima das práticas africanas originais, sem as reformas que ocorreram no Ketu nos séculos XIX e XX.

Quais são os principais voduns da tradição Fon e seus correspondentes orixás?

Os principais voduns da tradição Fon e seus correspondentes no sistema Ketu são: Sakpata (Omulu/Obaluaiê), senhor da terra e das doenças; Xeu (Oxum), divindade dos rios e do amor; Dan (Iemanjá), mãe de todos; Gû (Ogum), guerreiro de ferro; Agbe (Oxalá), divindade da criação; e Hevioso (Xangô), senhor do trovão. A tradição Jejê também preserva divindades próprias como Damballah, a serpente sagrada, que não tem correspondente direto no Ketu.

Por que a Nação Jejê é menos conhecida que as outras nações do Candomblé?

A Nação Jejê foi menos documentada pela academia brasileira durante décadas, o que a tornou menos 'visível' até para os próprios praticantes de Candomblé. Além disso, a tradição Fon chegou ao Brasil em menor número comparada aos Yorubá (Ketu) e Bantu (Angola), e seus terreiros eram frequentemente mais isolados. Foi só a partir dos anos 1980, com o trabalho de pesquisadores como Pierre Verger e Mário Afrânio Filho, que a Nação Jejê começou a ser reconhecida como uma tradição autônoma e importante.

O que significa a palavra 'vodun' na tradição Fon e por que ela foi demonizada no Brasil?

Na tradição Fon, 'vodun' significa simplesmente 'divindade', 'espírito' ou 'força misteriosa', sem qualquer conotação negativa. No Brasil, a palavra foi distorcida para 'vodu' ou 'vodum' e associada a estereótipos de bruxaria e práticas demonizadas, especialmente por influência do cinema e da cultura pop. Essa demonização é um reflexo do racismo religioso que historicamente perseguiu as religiões de matriz africana no Brasil.

Quais estados brasileiros têm a maior presença de terreiros de Nação Jejê?

A Bahia, especialmente Salvador, concentra a maior parte dos terreiros de Nação Jejê ativos no Brasil, com casas como o Ilê Axé Ijino Ilu Mêrim preservando a tradição de forma pura. O Maranhão, com São Luís como centro, tem a segunda maior concentração, com terreiros que mantêm cantos em fon até hoje. O Ceará (Fortaleza) e Pernambuco (Recife) também têm registros de presença jeje, embora em menor número. O Candomblé do Maranhão foi reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial em 2017.

Como a tradição Fon chegou ao Haiti e qual a relação com o Candomblé brasileiro?

A tradição Fon chegou ao Haiti através dos mesmos processos de tráfico e diáspora que a levaram ao Brasil, transformando-se no vodu haitiano — uma das tradições mais próximas do sistema Fon original. No Haiti, os voduns são chamados de lwa e o sincretismo com o catolicismo é mais explícito. A relação com o Candomblé brasileiro é de 'primos': ambos compartilham a mesma raiz Fon, mas desenvolveram características diferentes devido às condições históricas, geográficas e culturais de cada país.

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Mais de duas décadas de atuação espiritual no Terreiro Xangrilá. Atendimento pessoal e reservado para orientação em amor, família, caminhos profissionais e proteção espiritual.

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