Quem são os Malandros na Umbanda: Zé Pelintra e sua falange
Guia completo sobre Zé Pelintra e sua falange

Quem são os Malandros na Umbanda: Zé Pelintra e sua falange
A malandragem de luz que transforma a rua em caminho de axé e a boemia em trabalho de caridade.
A Primeira História: Quando a Rua se Torna Sagrado
Você já sentiu que a vida inteira está te empurrando para um canto? Que as portas se fecham, que os caminhos se estreitam, que ninguém dá a mão? Pois é exatamente nesse momento — quando tudo parece escuro e sem saída — que uma energia singular pode aparecer no seu caminho. Não é a força bruta. É a sagacidade. A malandragem de luz. A capacidade de ver uma saída onde todos só veem parede.
Na Umbanda, existe uma falange que carrega exatamente esse dom: os Malandros. E se há um nome que ecoa com mais força nessa linha de trabalho, é o de Zé Pelintra — o advogado dos pobres, o mestre da virada, o espírito que transformou a boemia em missão de caridade.
Mas quem são, de verdade, esses seres que chegam no terreiro com samba no pé, chapéu de lado e um sorriso que disfarça uma sabedoria ancestral? O que move uma falange nascida nas esquinas, nos morros e na noite carioca a se tornar uma das mais respeitadas linhas de trabalho da Umbanda?
Vamos desvendar essa história.
Quem é Zé Pelintra: A Lenda por Trás da Entidade
Seu Zé Pelintra não é uma invenção. É um espírito que viveu, respirou, sofreu e celebrou na Terra. Sua história tem raízes no interior de Pernambuco, onde nasceu como José Gomes da Silva, ou, segundo algumas versões, José dos Anjos. Ainda jovem, ele partiu para o Rio de Janeiro, atraído pela promessa da cidade e pela boemia do bairro da Lapa — berço da malandragem carioca.
Lá, Zé Pelintra se tornou uma figura lendária. Era um homem negro, forte e ágil, perito em jogos de azar — baralho e dados — e imbatível no manejo de armas brancas. Mas não era um bandido qualquer. Zé tinha um código: defendia os injustiçados, protegia as mulheres como rainhas e nunca enganava quem tinha bom coração. Sua fama cresceu tanto que, segundo as histórias que sobreviveram ao tempo, ninguém ousava enfrentá-lo pela frente. Alguns dizem que sua morte veio por traição — atacado pelas costas, pois pela frente ele era imbatível.
"A morte de Zé Pelintra não foi um fim. Foi um momento de transição e continuidade."
— Doutor Ligiéro, pesquisador da cultura umbandista
Foi assim que Zé Pelintra, ao desencarnar, não se perdeu. Pelo contrário: ele reuniu seus irmãos de jornada e formou uma falange de malandros de luz — espíritos que, como ele, aprenderam na vida dura a arte de sobreviver e, agora no plano espiritual, usam essa sabedoria para ajudar quem precisa.
Malandros na Umbanda: A Linha das Almas que Confundem com Exu
Aqui entra um ponto crucial que muita gente confunde: os Malandros NÃO são Exus. Embora trabalhem na Linha de Esquerda, frequentemente apareçam em giras de Exu e compartilhem o sub-mundo como campo de atuação, os Malandros pertencem à Linha das Almas — o mesmo grupo espiritual dos Pretos-Velhos, Boiadeiros, Mineiros e Baianos.
Por que essa confusão acontece? Porque na prática, muitos terreiros não possuem uma gira exclusiva para Malandros. Assim, eles acabam se manifestando nas giras de Exu, pela afinidade natural com o ambiente de rua, esquina, subida de morro e encruzilhada. Mas a diferença é fundamental:
- Exus estão nas encruzilhadas, nos cruzeiros, na força bruta da estrada
- Malandros estão nos bares, festas, subidas de morros, esquinas, boemias — trazendo a alegria, a malandragem inteligente e a ginga como ferramenta de trabalho espiritual
Essa distinção é importante porque revela o verdadeiro espírito dessa falange: eles não são energias de quebra ou confronto direto. São espíritos de reversão, de esperteza, de encontrar caminhos alternativos onde a lógica comum falha.
A Falange de Zé Pelintra: Os Nomes que Compõem a Malandragem de Luz
Eu sempre digo aos meus consultantes que..
A falange dos Malandros é vasta e diversa. Zé Pelintra, como Chefe de Falange, reúne espíritos que viveram em contextos similares — a vida nos morros cariocas, na boemia da Lapa, nos subúrbios de Salvador e Recife. São almas que conhecem a dor da exclusão, a lógica da sobrevivência e, agora, canalizam essa experiência para o auxílio espiritual.
Uma vez, uma sacerdotisa me disse algo que nunca esqueci: "Como dizia Zélio Fernandino: 'Umbanda é a religião do amor, da caridade e da fraternidade.'"
Entre os membros mais conhecidos dessa falange, destacam-se:
- Seu Chico Pelintra
- Cibamba
- Zé da Virada
- Zé Camisa Preta (ou Zé Pretinho)
- Zé Mineiro
- Zé Camisa Vermelha
- Zé Camisa Listrada
- Malandrinho
- Zé da Mata
- Malandro da Baixa do Sapateiro
- Malandro da Lapa
- Malandro do Pelourinho
- Malandro da Praia
- Malandro da Zona Portuária
- Zé do Morro
- Zé da Estrada
- Zé da Esquina
- Zé do Cais.
E não são apenas homens. As Malandras também têm seu espaço com nomes poderosos:
- Maria Navalha
- Maria Branca
- Maria Sete Léguas
- Maria do Pente Fino
- Maria Rosa Navalha
- Rosa do Cabaré
- Rosa da Lapa
- Maria do Cais
- Maria Homem
Além disso, existem os Malandrinhos e Malandrinhas — espíritos mais jovens que, em vida, enfrentaram abandono familiar e aprenderam a sobreviver nas ruas. São entidades alegres, extrovertidas e defensoras dos mais fracos.
O Coringa da Umbanda: Onde Zé Pelintra Pode Trabalhar
Uma das características mais fascinantes de Zé Pelintra é sua versatilidade. Ele é um verdadeiro coringa na Umbanda: pode se manifestar em praticamente qualquer gira — não apenas nas de Malandros ou Exu, mas também:
- Na gira de Pretos-Velhos
- Na gira de Mineiros
- Na gira de Baianos
- Na gira de Boiadeiros
- Na gira de Marinheiros
- Na gira de Caboclos
Isso acontece porque, como chefe de falange, ele carrega uma sabedoria acumulada que transcende as categorias. É comum encontrar variações como Zé Baiano, Zé Boiadeiro ou Zé Mineiro — trançamentos que mostram como Zé Pelintra pode se adaptar e cruzar linhas para atender a necessidade específica de cada trabalho espiritual.
Como Zé Pelintra Trabalha: O Advogado dos Pobres
O apelido de "advogado dos pobres" não é à toa. Zé Pelintra é conhecido por:
- Abrir caminhos quando todos parecem fechados
- Resolver problemas complexos com inteligência e sagacidade
- Realizar curas — tanto físicas quanto espirituais
- Proteger os desvalidos e quem sofre injustiça
- Descarregar ambientes com sua energia alegre e descontraída
- Trazer alegria e leveza onde há peso e escuridão.
Seu ponto de força está na subida de morros, esquinas, encruzilhadas e até cemitérios — lugares onde a vida e a morte se tocam, onde os desencarnados vagam e onde os vivos mais precisam de proteção. Muitos terreiros colocam sua imagem na porta de entrada, pois ele também toma conta das entradas e saídas, protegendo o espaço sagrado.
As Cores e os Símbolos da Falange
Os Malandros têm uma estética inconfundível. Suas cores principais são o branco e o vermelho, que representam respectivamente Oxalá (a fé, a paz, o resgate espiritual) e Ogum (a lei, os caminhos, a justiça). Essa combinação é profundamente simbólica: mostra como a malandragem, que em vida pode ter desafiado a lei humana, agora trabalha sob a regência da Lei Maior — a lei do retorno, da caridade, do equilíbrio kármico.
Na vestimenta, o clássico é o terno de linho branco e chapéu de panamá — a elegância do malandro que, mesmo na simplicidade, carrega dignidade. Alguns usam camisa preta, vermelha ou listrada, cada uma representando uma qualidade ou uma região específica de atuação.
As guias (colares) também variam: podem ser de coquinhos com olho de Exu, vermelho e preto, vermelho e branco ou preto e branco, dependendo da entidade e do trabalho que realiza.
Oferendas e Ritualística: Como Honrar os Malandros
Os Malandros, como boêmios que são, apreciam oferendas que remetem à sua vida terrena. Entre as oferendas mais comuns, estão:
- Sardinha frita
- Farofa de carne seca
- Petiscos variados
- Churrasco
- Camarões
- Bebidas (cachaça, cerveja, vinho — sempre com moderação e respeito)
- Cigarros ou charutos (a fumaça como defumador astral, mas não é obrigatória e nunca deve envolver toxicos como maconha)
- Cravos para os Malandros
- Rosas para as Malandras.
É importante ressaltar: as entidades de verdade não usam drogas ou toxicos. Quem se apresenta como Malandro e exige ou usa substâncias ilícitas não está carregando uma energia de luz. O cigarro e o charuto, quando usados, são instrumentos ritualísticos — a fumaça como defumador astral — e não vício ou deboche.
Os Sinais de que Você Precisa da Ajuda de um Malandro
Como saber se a falange dos Malandros pode te ajudar? Existem alguns sinais claros:
- Você se sente preso em situações que a lógica comum não resolve
- Sente que todos os caminhos estão fechados e precisa de uma "virada"
- Está passando por injustiças e precisa de proteção
- Precisa de leveza e alegria em meio a um momento muito pesado
- Sente que a sorte não está do seu lado e precisa reverter essa energia
- Está lidando com problemas de justiça ou causas na lei (literalmente ou metaforicamente)
- Precisa de sabedoria para lidar com pessoas difíceis ou situações complicadas.
Se algum desses pontos ressoou com você, pode ser que Zé Pelintra e sua falange tenham uma mensagem — e um trabalho — a entregar.
Zé Pelintra no Catimbó e na Umbanda: Duas Tradições, Uma Mesma Luz
É importante mencionar que Zé Pelintra não é exclusivo da Umbanda. Ele também é uma figura central no Catimbó (ou Jurema), culto praticado no Nordeste brasileiro, onde é reverenciado como Mestre Juremeiro. No Catimbó, ele traz o poder da cura, dos conselhos, da sabedoria popular.
A transição do Catimbó para a Umbanda mostra como as tradições espirituais brasileiras são porosas e dialogantes. Zé Pelintra caminhou do Nordeste ao Sudeste, da Jurema para a Umbanda, e em cada lugar se adaptou sem perder sua essência. Em São Paulo, por exemplo, é comum que ele também se manifeste na gira dos Baianos — uma continuidade da sua ligação com o Catimbó.
Umbanda é a religião do povo.
Oxalá não é santo de rezar uma vez só.
Conclusão: A Malandragem que Ilumina
Os Malandros na Umbanda representam uma das lições mais belas dessa religião: ninguém está perdido para sempre. Zé Pelintra e sua falange são prova viva de que até mesmo uma vida de rua, de boemia, de desafios à lei humana, pode se transformar em missão de luz. O que em vida era sagacidade para sobreviver, no plano espiritual torna-se sabedoria para ajudar.
Eles chegam com samba no pé, com o chapéu de lado, com um sorriso que desarma. Mas por trás dessa aparência descontraída, há espíritos de muita luz, experiência e compromisso com a caridade.
Se você está em um momento de escuridão, se os caminhos parecem fechados, se a justiça parece longe — lembre-se: existe uma falange que especializa-se em viradas. Que encontra saídas onde não há. Que transforma a rua em caminho de axé e a noite em oportunidade de luz.
Salve a Malandragem de Luz! Salve Seu Zé Pelintra! Que a ginga do malandro abra seus caminhos!
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A Umbanda é a segunda maior religião do Brasil em número de adeptos, segundo o IBGE de 2010.
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Perguntas frequentes
Qual a diferença entre Umbanda e Candomblé?
A Umbanda incorpora mais elementos espiritistas e trabalha com entidades diversas; o Candomblé é mais próximo das tradições africanas.
O que é Umbanda?
Umbanda é uma religião afro-brasileira que sintetiza elementos africanos, indígenas e espiritistas.
Como começar na Umbanda?
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