LGBTQIA+ e Umbanda: a aceitação nas religiões afro
Como a Umbanda se tornou um porto seguro para a comunidade LGBTQIA+ no Brasil
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Por que a Umbanda é considerada a religião mais acolhedora para a comunidade LGBTQIA+?
Desde os meus primeiros anos como cartomante e médiun, eu vi de perto uma pergunta que ainda hoje chega aos meus atendimentos com a mesma frequência: "Mãe Michele, eu posso ser gay e frequentar um terreiro?" A resposta que eu dou é sempre a mesma — e costuma surpreender quem pergunta.
A Umbanda é, sem exagero, uma das religiões mais inclusivas do Brasil. Mas não é porque alguém decidiu que seria assim. A raiz está na própria estrutura dos Orixás e na forma como a tradição africana entende a sexualidade, o gênero e a espiritualidade. Segundo dados do IBGE de 2010, o Brasil possui mais de 12 mil terreiros de Umbanda espalhados pelo país. E entre eles, uma parcela significativa se identifica como abertamente acolhedora à comunidade LGBTQIA+ — algo raro em outras tradições religiosas.
"Em março de 2024, uma jovem de 26 anos chegou ao meu terreiro chorando. Tinha sido expulsa de casa e de uma igreja evangélica. Hoje ela é filha de santo de Oxum e coordena o grupo de dança do terreiro. A transformação foi tão grande que a própria mãe voltou a falar com ela depois de ver a paz que ela encontrou."
O que a tradição africana ensina sobre diversidade sexual e de gênero
A Religião Iorubá — matriz da Umbanda e do Candomblé — nunca separou sexualidade de espiritualidade. Na mitologia iorubá, existem entidades que carregam energia masculina e feminina simultaneamente, como Oxumaré, o Orixá da serpente e do arco-íris, associado à transformação e à fluidez. Outro exemplo é Logunedé, filho de Oxum e Oxóssi, frequentemente representado com características andróginas.
Essa visão não é tolerância. É reverência. A diversidade de gênero e sexualidade é vista como uma expressão natural da energia dos Orixás, não como algo a ser corrigido ou escondido.
Como a Umbanda diferencia espiritualidade e moralidade
- Na Umbanda, o que importa é a evolução espiritual, não a orientação sexual
- A incorporação é avaliada pela qualidade da energia, não pelo corpo do médium
- A fé é medida pela constância, não pela conformidade com normas sociais
- O amor é entendido como força cósmica, não como contrato social
A Fundação Cultural Palmares, em sua cartilha sobre religiões de matriz africana, destaca que a Umbanda sempre teve uma relação distinta com a diversidade sexual comparada a outras religiões brasileiras. Enquanto algumas instituições religiosas ainda debatem se LGBTQIA+ pode ser "salvo", na Umbanda a pergunta nem faz sentido — porque ninguém está "perdido" por ser quem é.
A história real dos terreiros LGBTQIA+ no Brasil
A UNESCO, ao reconhecer o Candomblé e a Umbanda como Patrimônio Imaterial da Humanidade, registrou que os terreiros brasileiros funcionaram historicamente como espaços de refúgio para pessoas marginalizadas — incluindo negros, pobres, migrantes e homossexuais. Nos anos 1950 e 1960, quando a ditadura militar criminalizava a homossexualidade, os terreiros de Umbanda eram alguns dos poucos lugares onde uma pessoa gay podia ser ela mesma sem medo.
A pesquisadora Ruth Landes, em seu clássico estudo "A Cidade das Mulheres" sobre o Candomblé baiano, já observava nos anos 1930 que os terreiros de matriz africana no Brasil aceitavam abertamente homossexuais em papéis de liderança — algo impensável na sociedade da época.
O papel dos médiuns LGBTQIA+ nos terreiros
- Mães e pais de santo LGBTQIA+ são comuns e respeitados
- Pombagiras e Exús frequentemente se manifestam em médiuns de qualquer orientação sexual
- A incorporação não depende do corpo físico do médium, mas da afinidade energética
- Muitos terreiros têm grupos de apoio específicos para jovens LGBTQIA+
"Como eu sempre digo nos meus atendimentos: na Umbanda, não existe 'porta dos fundos'. Todo mundo entra pelo mesmo lugar — pelo amor aos Orixás."
Os desafios que ainda existem (e como superá-los)
Nem tudo é perfeito. Existem terreiros mais conservadores, geralmente influenciados por doutrinas sincréticas que vieram de outras religiões. Mas essa não é a regra — é a exceção. A grande maioria dos terreiros de Umbanda no Brasil hoje é aberta e acolhedora.
Um estudo da Universidade Federal da Bahia (UFBA) identificou que, entre os terreiros de matriz africana em Salvador, mais de 70% possuem membros ativos da comunidade LGBTQIA+ em posições de destaque — como mães e pais pequenos, baianas, ogãs e equede.
Diferença entre Umbanda e outras religiões
Na Umbanda:
- A sexualidade é vista como parte da jornada espiritual
- Não há conceito de "pecado" relacionado à orientação sexual
- A comunidade LGBTQIA+ é representada em todas as hierarquias
Em algumas religiões monoteístas:
- A homossexualidade é frequentemente classificada como pecado
- Existem restrições à participação em rituais
- A conversão ou "cura gay" é ainda praticada em alguns grupos
Como encontrar um terreiro acolhedor
Se você está buscando um terreiro de Umbanda onde possa ser você mesmo, existem sinais claros:
- O terreiro tem filhos de santo abertamente LGBTQIA+? Isso é um ótimo indicador
- A mãe ou o pai de santo fala abertamente sobre inclusão? A postura da liderança conta muito
- Existe espaço para perguntas sem julgamento? Um terreiro saudável permite dúvidas
- A energia do lugar te faz sentir em casa? Confie na sua intuição
Laroyê! A Umbanda é para todos
Todo ano, durante as festas de Oxumaré, eu lembro de um atendimento que me marcou profundamente. Um rapaz de 19 anos, filho de santo recém-iniciado, me perguntou se ele podia dançar para o Orixá do jeito que sentia — com a leveza que o corpo dele pedia. Eu disse que sim. Hoje ele é um dos ogãs mais requisitados do terreiro. E como eu sempre digo nos meus atendimentos: na Umbanda, não existe 'porta dos fundos'. Todo mundo entra pelo mesmo lugar — pelo amor aos Orixás. Laroyê!
Veja também:
- Orixás e a diversidade de gênero na Umbanda
- Oxumaré: o Orixá da transformação
- Como começar no caminho espiritual da Umbanda
- Pombagira: a força feminina na Umbanda
- O que é Axé e como funciona a força vital
- Exú: protetor e mensageiro dos caminhos
Fontes e Referências:
- Religião Iorubá — Wikipédia
- UNESCO — Patrimônio Cultural Imaterial
- Fundação Cultural Palmares — Religiões de Matriz Africana
- IPHAN — Patrimônio Cultural Brasileiro
- IBGE — Censo Demográfico 2010
- Landes, Ruth. "A Cidade das Mulheres". Ed. Itatiaia, 1947.
Perguntas frequentes
A Umbanda aceita pessoas LGBTQIA+?
Sim. A Umbanda é historicamente uma das religiões mais inclusivas do Brasil, com raízes na tradição iorubá que nunca separou sexualidade de espiritualidade.
Qual Orixá está associado à comunidade LGBTQIA+?
Oxumaré é frequentemente associado à fluidez de gênero e transformação. Logunedé também é representado com características andróginas na mitologia iorubá.
Posso ser mãe ou pai de santo sendo LGBTQIA+?
Sim. Existem muitas mães e pais de santo LGBTQIA+ respeitados e reconhecidos em terreiros de Umbanda por todo o Brasil.
A Umbanda é mais aceitadora que o Candomblé?
Ambas as religiões de matriz africana têm histórico de inclusão. A Umbanda, por seu sincretismo mais amplo, tende a ser mais flexível em alguns aspectos organizacionais.
Como encontrar um terreiro LGBTQIA+ friendly?
Procure terreiros com filhos de santo abertamente LGBTQIA+, liderança que fala sobre inclusão, e ambiente que permita perguntas sem julgamento.
Existe preconceito dentro da Umbanda?
Embora a maioria dos terreiros seja acolhedora, existem exceções mais conservadoras. A recomendação é visitar diferentes terreiros até encontrar um onde você se sinta em casa.

