Lendas de Iemanjá: A Mãe que Perdeu Seus Filhos
Descubra as lendas de Iemanjá, a Mãe que perdeu seus filhos e, em sua dor, se tornou protetora de todos os filhos da terra.

Iemanjá é a orixá das águas salgadas, soberana dos oceanos, rios e lagos. No candomblé e na umbanda, é reverenciada como a mãe primordial, aquela que deu à luz todos os outros orixás. Seu nome vem do iorubá Yemọja — "mãe cujos filhos são peixes" —, uma referência à abundância de vida que habita suas águas. Nos meus atendimentos, vejo mulheres chegarem com os olhos inchados de choro, com a pele marcada por noites sem dormir, e com uma única pergunta: "Mãe Michele, por que a dor da minha mãe não some?" É aí que eu lembro dela — da mãe que perdeu os filhos e ainda assim abriu os braços para acolher o mundo inteiro.
Por que a dor de Iemanjá ainda nos atravessa o peito
Iemanjá é a orixá das águas salgadas, soberana dos oceanos, rios e lagos. No candomblé e na umbanda, é reverenciada como a mãe primordial, aquela que deu à luz todos os outros orixás. Seu nome vem do iorubá Yemọja — "mãe cujos filhos são peixes" —, uma referência à abundância de vida que habita suas águas.
Iemanjá representa a fertilidade, a maternidade, a proteção e o amor incondicional. Ela é quem acolhe os aflitos, quem leva as oferendas em seus barcos de papel e quem, no silêncio da noite, escuta as preces de quem chora à beira-mar. Mas por trás dessa figura majestosa, há uma ferida profunda: a perda dos seus filhos.
Segundo dados do IBGE, existem cerca de 12 mil terreiros de Umbanda espalhados pelo Brasil, e em quase todos eles Iemanjá é a primeira orixá a ser acolhida em momentos de perda. A UNESCO, por sua vez, reconheceu em 2008 as práticas e expressões do povo iorubá como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, onde o culto a Iemanjá figura como um dos pilares mais sensíveis — exatamente porque ele fala de dor que não tem fórmula, só transformação.
A lenda da perda dos filhos de Iemanjá
Existem várias versões do mito da perda, mas a mais conhecida conta que Iemanjá teve dezesseis filhos — cada um deles um orixá poderoso. A história diz que, em um determinado momento, os filhos começaram a se desentender, a se afastar uns dos outros, a perder a conexão com a mãe e com seus próprios caminhos.
A dor de Iemanjá foi tamanha que suas lágrimas encheram os oceanos. É por isso que o mar é salgado — porque carrega o choro de uma mãe que viu seus filhos se perderem no mundo. Em outra variação do mito, alguns dos filhos morreram ou foram levados para longe, e Iemanjá, desesperada, correu até as margens do mar, gritando seus nomes, chamando por eles em vão.
Essa lenda não é apenas uma história de tristeza. É um ensinamento sobre o amor materno que persiste mesmo quando o filho se afasta, sobre a dor que não nos define, mas nos transforma. Iemanjá não deixou de ser mãe por ter perdido. Pelo contrário: ela se tornou mãe de todos nós.
O simbolismo da perda na vida real
Não é difícil ver o reflexo dessa lenda nas nossas vidas. Quantas mães, avós, tias e mulheres que cuidam já não perderam alguém? Quantas não carregam uma dor que parece não ter fim? A força de Iemanjá está em mostrar que a dor não anula o amor — ela o amplifica.
Na umbanda e no candomblé, quando alguém perde um filho, uma gravidez ou um ente querido, é comum buscar o consolo de Iemanjá. Acredita-se que ela abraça essas almas com a mesma ternura com que acolhe seus próprios filhos perdidos. Seu mar não é apenas água — é um colo materno infinito. A Fundação Cultural Palmares documenta que, em comunidades de terreiro, a figura de Iemanjá como "mãe de todos" é central para rituais de passagem e luto, especialmente quando uma criança ou jovem parte antes do tempo.
Iemanjá e a cura através das águas
Uma das lições mais bonitas das lendas de Iemanjá é que a cura vem de dentro da própria dor. Iemanjá não fugiu do mar para não mais ver a água. Ela se tornou a própria água. Suas lágrimas se transformaram em ondas, em correntes, em chuvas que fertilizam a terra.
Isso fala diretamente com quem está vivendo um luto. A dor não some da noite para o dia, mas ela pode ser canalizada. Pode virar arte, cuidado com os outros, espiritualidade, amor renovado. Iemanjá nos ensina que chorar é sagrado, que sentir saudade não é fraqueza, e que a memória de quem se foi pode ser mantida viva através do amor que continuamos a distribuir. Como escreveu o antropólogo Edison Carneiro em seus estudos sobre o candomblé, "a lágrima de Iemanjá é o próprio sal da vida" — e o sal não é só dor, é também preservação.
O culto a Iemanjá no Brasil: um respiro coletivo
No Brasil, a festa de Iemanjá no dia 2 de fevereiro é um dos momentos mais emocionantes do calendário religioso. Milhares de pessoas vão às praias carregando oferendas — flores, perfumes, espelhos, joias, cartas, velas. Tudo é colocado em pequenos barquinhos de madeira ou papel e entregue ao mar.
O que muitos não sabem é que, para muitas dessas pessoas, o barquinho carrega também uma dor. Uma perda. Uma saudade que não tem onde ir. Iemanjá recebe tudo. Ela é a mãe que nunca fecha a porta. E naquele momento, quando a onda leva a oferenda, há um sentimento coletivo de alívio — de que alguém, lá no fundo do mar, entendeu.
Como pedir a Iemanjá na dor da perda
Se você está passando por um momento de luto, de perda de alguém querido, ou mesmo pela sensação de ter "perdido" uma parte de si, Iemanjá pode ser uma presença reconfortante. Aqui estão algumas formas de buscar sua energia:
- Vá até a praia ou a beira de um rio. Não precisa ser dia de festa. Leve uma flor branca, um perfume doce, ou simplesmente seu coração aberto. Muitas pessoas fazem banhos de Iemanjá com água do mar e ervas para renovar a energia após um período de dor.
- Faça uma oferenda simbólica. Pode ser um bilhete escrito, uma vela azul ou branca, um espelho pequeno. O importante é a intenção. Saiba o que colocar e como preparar oferendas para Iemanjá para que a entrega seja feita com respeito e clareza.
- Reze com sinceridade. Iemanjá não exige rituais complexos. Ela responde ao sentimento genuíno. Diga o que sente, peça força, peça acolhimento. Uma oração a Iemanjá feita com fé pode ser o início de uma conversa que dura anos.
- Use azul e branco. Essas são as cores de Iemanjá, símbolos de pureza e profundidade. Vestir essas tonalidades, ou ter uma vela dessas cores acesa em casa, pode ajudar a criar uma conexão.
- Cante suas cantigas. Canções como "Odoyá, Iemanjá" ou "Yemanjê, minha mãe" carregam uma vibração ancestral que acalma e eleva.
Por que essa lenda ressoa tanto com as mulheres
As lendas de Iemanjá sobre a perda dos filhos têm um apelo particularmente forte entre as mulheres, e não é por acaso. Em uma sociedade que muitas vezes exige que as mulheres sejam fortes o tempo todo, inabaláveis, Iemanjá oferece uma outra narrativa: ela chora, e continua sendo poderosa. Ela perde, e continua sendo mãe de todos. Ela sente dor, e ainda assim acolhe.
Essa é uma mensagem que muitas mulheres precisam ouvir. Que não há vergonha em sentir. Que a maternidade — ou o desejo de ser mãe, ou a dor de não poder ser — não define o valor de uma pessoa. E que, por mais que a vida nos arranque pedaços, ainda somos inteiras. Como eu sempre digo nos meus atendimentos: "Iemanjá não te pede para ser forte. Ela te pede para ser honesta."
Veja também
- Quem é Iemanjá? A história da rainha do mar
- Oração a Iemanjá: como fazer seu pedido com fé
- Oferendas para Iemanjá: o que colocar e como preparar
- Dia de Iemanjá: origem, significado e como celebrar
- Iemanjá e Oxum: as duas faces do amor materno
- Cores de Iemanjá: o significado do azul e branco na umbanda
Fontes e Referências:
Perguntas frequentes
Qual é a origem do nome Iemanjá e o que significa?
Iemanjá vem do iorubá Yemọja, que significa 'mãe cujos filhos são peixes'. Esse nome reflete sua natureza como soberana das águas e mãe primordial que deu à luz todos os outros orixás. No candomblé e na umbanda, ela é reverenciada como a orixá das águas salgadas, dos oceanos, rios e lagos.
Por que o mar é salgado segundo a lenda de Iemanjá?
Segundo o mito, o mar é salgado porque carrega as lágrimas de Iemanjá ao perder seus filhos. A dor de ver seus dezesseis filhos se desentenderem, se afastarem ou partirem foi tamanha que suas lágrimas encheram os oceanos. Cada gota de água salgada representa o choro de uma mãe que continuou amando mesmo após a perda.
Como pedir a Iemanjá na dor da perda de um filho?
Você pode ir até a praia ou beira de rio com uma flor branca, perfume doce ou uma oferenda simbólica como um bilhete, vela azul ou branca, ou espelho pequeno. Iemanjá não exige rituais complexos — responde ao sentimento genuíno. Use suas cores (azul e branco), cante cantigas como 'Odoyá, Iemanjá', e reze com o coração aberto. O importante é a intenção, não a grandiosidade do ritual.
Qual a relação entre Iemanjá e a cura do luto?
Iemanjá ensina que a dor não anula o amor, mas o amplifica. Ela não fugiu do mar após perder seus filhos — se tornou a própria água. Sua lenda mostra que chorar é sagrado, sentir saudade não é fraqueza, e que a memória de quem partiu pode ser mantida viva através do amor que continuamos a distribuir. Suas lágrimas se transformaram em ondas, em correntes, em chuvas que fertilizam a terra.
Quando se celebra Iemanjá no Brasil e como é a festa?
A principal festa de Iemanjá acontece no dia 2 de fevereiro. Milhares de pessoas vão às praias com oferendas em barquinhos — flores, perfumes, espelhos, joias, cartas e velas. Para muitos, o barquinho carrega também uma dor, uma perda, uma saudade sem onde ir. Iemanjá recebe tudo como a mãe que nunca fecha a porta. O momento em que a onda leva a oferenda traz um sentimento coletivo de alívio.
Por que as lendas de Iemanjá ressoam tanto com as mulheres?
Iemanjá oferece uma narrativa poderosa para as mulheres: ela chora e continua sendo poderosa. Ela perde e continua sendo mãe de todos. Ela sente dor e ainda assim acolhe. Em uma sociedade que exige força inabalável das mulheres, Iemanjá mostra que não há vergonha em sentir, que a dor não define o valor de uma pessoa, e que ainda somos inteiras mesmo quando a vida nos arranque pedaços.

