Iemanjá: origem africana, mitologia e chegada ao Brasil
Conheça a história da Mãe das Águas, a orixá que cruzou o Atlântico e se tornou símbolo de resistência e devoção no Brasil

Quem é Iemanjá na mitologia africana?
Iemanjá é uma das divindades mais poderosas e reverenciadas da tradição iorubá, originária da África Ocidental, especialmente entre o povo Egbá, na região que hoje corresponde à Nigéria. Seu nome deriva da expressão iorubá "Yèyé omo ejá", que significa "Mãe cujos filhos são peixes" — uma referência direta à sua fertilidade inesgotável e à sua ligação com as águas que sustentam toda a vida.
Na mitologia Yoruba, Iemanjá não é apenas uma orixá entre tantas. Ela é considerada a mãe primordial, a deusa das águas doces e salgadas, protetora dos pescadores, das grávidas, das crianças e de todos que dependem do mar para viver. Sua importância é tão grande que muitos mitos de criação a colocam como co-criadora do mundo ao lado de Olodumaré, o supremo.
"Iemanjá não é apenas a Rainha do Mar. Ela é o próprio útero cósmico de onde nasceram rios, lagos, orixás e a própria humanidade."
A origem africana de Iemanjá
A história de Iemanjá começa nas terras do povo Egbá, entre as cidades de Ifé e Ibadan, onde existia um rio sagrado que levava seu nome: o Rio Yemoja. Pierre Verger, o renomado etnólogo e babalawo, registrou em seu livro Dieux D'Afrique que Iemanjá é originalmente o orixá dos Egbá, e que seu culto estava intimamente ligado às águas desse rio.
No século XIX, guerras entre nações iorubás forçaram os Egbá a migrar para oeste, em direção a Abeokuta. Não puderam levar o rio consigo, mas transportaram os objetos sagrados que sustentavam o axé da divindade. A partir de então, o Rio Ògùn, que atravessa a região de Abeokuta, tornou-se a nova morada de Iemanjá na África.
O mito da criação
Existem várias versões do mito de criação envolvendo Iemanjá. Uma das mais conhecidas conta que, no princípio, Olodumaré estava sozinho sobre as águas, sem consciência de si mesmo. Foi então que Iemanjá surgiu e deu luz às estrelas, às nuvens e aos orixás. Em outra versão, ela vivia solitária no Orum (morada dos deuses) até que, de seu ventre, nasceram sucessivamente as estrelas, as nuvens e, finalmente, os orixás que lhe fariam companhia — Xangô, Oiá, Ogum, Ossaim, Obaluaê e os Ibejis.
Outra narrativa poderosa fala de sua união com Aganju, o orixá da transformação associado aos vulcões. Desse casamento nasceu Orungã, divindade dos ventos, que se apaixonou pela própria mãe. Ao tentar possuí-la, Iemanjá fugiu, tropeçou e caiu. De seus seios rasgados, duas correntes de água brotaram e formaram lagos, e de seu ventre nasceram mais orixás. Seu corpo se tornou o próprio rio que a levou ao oceano.
Características e manifestações de Iemanjá
No Candomblé, Iemanjá possui diversas qualidades e personalidades que, às vezes, parecem distintas umas das outras. Cada manifestação carrega características específicas:
- Iemanjá Asèssu: A Iemanjá vestida de verde, voluntariosa e respeitável
- Iemanjá Assabá: A mais jovem, representada de azul, sempre fiando algodão
- Iemanjá Akurá: Vive nas espumas do mar, coberta de algas, pouco vaidosa mas muito rica
- Iemanjá Ataramaba: Representação infantil no colo de Olokun, agitada como a espuma das ondas suaves
- Iemanjá Olossá: A mais velha da terra de Egbado, anda curvada com passos lentos
- Iemanjá Ogunté: Casada com Ògún Alagbedé, ligada às águas mais profundas
"Cada Iemanjá é um rosto diferente do mesmo mar. Calmo ou revoltoso, gentil ou tempestuoso — ela é todas as águas."
Seus elementos e oferendas
As cores de Iemanjá variam conforme sua qualidade, mas predominam o branco, o azul claro e o verde água. Suas contas são geralmente de cristal branco ou azul. No dia a dia, seus filhos e filhas buscam aproximação através de:
- Oferendas no mar ou em rios — especialmente no dia 2 de fevereiro
- Flores brancas — rosas, lírios e gardênias
- Perfumes e espelhos — objetos de vaidade que ela aprecia
- Comidas típicas: peixe, arroz de coco, farofa de dendê, acaçá
- Doçuras — doces de leite, coco e açúcar
A chegada de Iemanjá ao Brasil
O culto a Iemanjá chegou ao Brasil através do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, principalmente de nações Egbá e Yorubá. Entre as diversas práticas religiosas africanas que sobreviveram à brutalidade da escravidão, o culto a Iemanjá foi um dos mais resilientes e adaptáveis.
Durante o período colonial, a Igreja Católica impôs a evangelização forçada aos africanos e seus descendentes. Para manterem suas crenças vivas sem sofrer perseguição, os escravizados criaram o sincretismo religioso: Iemanjá foi associada a várias manifestações de Maria:
- Nossa Senhora dos Navegantes — na Bahia e no Rio Grande do Sul
- Nossa Senhora da Conceição — em São Paulo
- Nossa Senhora da Glória — no Rio de Janeiro
Essa estratégia de resistência cultural permitiu que Iemanjá continuasse sendo adorada, mesmo sob a aparência de santos católicos. O nome Janaína, por exemplo, foi uma criação do período escravocrata — uma forma mais branda de sincretismo que permitia que os senhores ouvissem nomes "aceitáveis" enquanto os escravizados mantinham viva sua devoção à Mãe das Águas.
A festa do 2 de fevereiro
A data de 2 de fevereiro tornou-se a celebração mais importante de Iemanjá no Brasil. A tradição ganhou força especial em Salvador, na Bahia, onde milhares de pessoas vestidas de branco saem em procissão até a foz do Rio Vermelho. Lá, depositam oferendas como flores, perfumes, espelhos, joias e comidas no mar.
A origem dessa festa na Bahia remonta a 1923, quando um grupo de pescadores enfrentava escassez de peixes. Decidiram oferecer um presente à Mãe das Águas e, em troca, receberam fartura. Desde então, a data consolidou-se como um dos maiores eventos religiosos do país, transcendendo fronteiras de crenças e reunindo fiéis de todas as religiões.
No Rio de Janeiro, a passagem de ano também é marcada por celebrações a Iemanjá, com milhares de pessoas pulando as sete ondas e fazendo o tradicional "banho de pipoca" para pedir sorte e proteção para o ano que começa.
Iemanjá na Umbanda e no Candomblé contemporâneo
No Candomblé, Iemanjá é uma orixá fundamental, pertencente ao grupo das Yabás (orixás femininas). Seu assentamento sagrado é chamado de igba yemanja, e seu dia é o sábado. No jogo do merindilogun, ela fala pelos odus ejibe e ossá.
Na Umbanda, Iemanjá ocupa um lugar igualmente central. É considerada a divindade do mar, padroeira dos náufragos, e mãe de todas as cabeças humanas. Sua energia maternal e protetora é invocada em trabalhos de limpeza, cura e orientação espiritual.
Independentemente da tradição, Iemanjá representa:
- Maternidade cósmica e proteção incondicional
- Fertilidade e abundância
- Intuição e sabedoria das profundezas
- Renovação e fluxo da vida
- Resiliência — como as águas que sempre encontram seu caminho
Como se conectar com a energia de Iemanjá
Se você sente atração pela energia de Iemanjá ou precisa de sua proteção, existem caminhos simples e respeitosos para se aproximar:
- Visite o mar ou um rio — especialmente no amanhecer ou no entardecer
- Ofereça flores brancas — deixe-as flutuando na água com uma prece silenciosa
- Mantenha um copo com água na sua casa, trocando regularmente
- Use roupas brancas ou azul claro nos sábados
- Ouça cantigas e pontos dedicados a ela — a música é uma das portas para o sagrado
A saudação tradicional a Iemanjá é "Odoyá!" — uma expressão que carrega reverência, amor e reconhecimento de sua maternidade divina.
"Iemanjá não escolhe a quem amar. Seus braços são as ondas que abraçam todos os filhos que buscam seu colo."
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