A história dos terreiros no Sul: imigração, resistência e fé
Como a Umbanda e o Candomblé encontraram lar nos pampas e serras do sul do Brasil

A História dos Terreiros no Sul do Brasil: Imigração e Adaptação
Quando falamos das religiões afro-brasileiras, é comum que nossa mente viaje imediatamente para o Rio de Janeiro, Salvador ou Recife. Mas existe uma história fascinante e pouco contada que aconteceu — e continua acontecendo — bem aqui no Sul do Brasil. Como filha de Iansã que sou, aprendi que o vento carrega energia para todos os cantos, e o axé dos nossos ancestrais também encontrou morada nos pampas, nas serras e nas cidades do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Os Primeiros Passos: Como Chegamos ao Sul
A história dos terreiros no Sul começa, como quase tudo na Umbanda e no Candomblé, com a dor e a resistência do povo africano. Durante o século XIX, enquanto o sudeste e o nordeste consolidavam suas tradições religiosas, o Sul recebia ondas de imigrantes — não só europeus, como italianos, alemães e poloneses, mas também brasileiros que vinham de outras regiões em busca de trabalho e novas oportunidades.
Entre esses migrantes, havia pretos e pretas velhas, baianos, sacerdotes e sacerdotisas que traziam consigo não apenas suas malas, mas seus orixás, seus guias e sua fé inabalável. Eles chegavam às cidades de Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis e cidades do interior, muitas vezes encontrando um ambiente social mais conservador e menos receptivo do que o encontrado no norte do país.
A Adaptação Necessária
Aqui precisamos entender algo importante: os terreiros do Sul não são uma cópia dos terreiros do nordeste. Eles são organismos vivos que respiraram o ar das araucárias, que sentiram o frio do inverno gaúcho, que conviveram com comunidades majoritariamente brancas e católicas. Essa convivência exigiu adaptações.
Muitos terreiros do Sul, especialmente nas primeiras décadas do século XX, funcionavam de forma mais discreta. A Umbanda ganhou especial força na região justamente por sua capacidade de sincretização e por ser mais facilmente aceita em um contexto social que ainda olhava com desconfiança para as práticas africanas puras. Os terreiros de Umbanda do Sul muitas vezes incorporavam elementos da cultura gaúcha, da espiritualidade católica local e até mesmo das tradições dos imigrantes europeus.
A Cultura Gaúcha e os Terreiros
Algo que me emociona profundamente é ver como a cultura gaúcha encontrou pontos de convergência com a nossa espiritualidade. O respeito à tradição oral, a importância da comunidade, a conexão com a terra e os animais — tudo isso já existia no pampa. Os Caboclos, quando incorporavam em terreiros do Rio Grande do Sul, muitas vezes traziam consigo não apenas a força da mata, mas também a energia daqueles campos abertos, daquele céu enorme que o Sul nos presenteia.
Os Pretos-Velhos, com sua sabedoria ancestral, encontravam nos imigrantes idosos europeus — que também carregavam histórias de travessias e dificuldades — um espelho de suas próprias experiências. Era comum ver terreiros onde o café compartilhado no gira tinha o cheiro do café colonial gaúcho, onde as ervas usadas nos banhos incluíam plantas nativas do bioma sulino.
Período da Ditadura e Resistência
Não posso falar desta história sem mencionar um capítulo doloroso. Durante a ditadura militar, os terreiros do Sul sofreram perseguições intensas. A região, com sua história de colonização europeia e força do movimento operário, também abrigava segmentos conservadores que viam nas religiões afro-brasileiras uma ameaça à ordem.
Muitos terreiros foram fechados. Médiuns e dirigentes foram presos, torturados ou obrigados a abandonar suas práticas. Alguns terreiros históricos de Porto Alegre e Curitiba têm em suas memórias relatos de perseguição policial, de invasões durante giras, de lideranças que tiveram que se esconder para preservar a tradição.
Mas, como sempre acontece quando se trata da nossa fé, a resistência foi maior que a opressão. Os terreiros que sobreviveram saíram mais fortes, com uma identidade própria, com uma compreensão profunda do valor da liberdade religiosa — que hoje é um pilar fundamental da região.
O Renascimento e a Diversidade Atual
A partir dos anos 1980 e 1990, o Sul viu um renascimento de suas tradições afro-brasileiras. Novos terreiros foram fundados, muitos deles já mais abertos, mais visíveis. A chegada de migrantes do nordeste, especialmente durante períodos de seca e crise econômica, trouxe novas energias, novas tradições. Hoje, Porto Alegre tem uma das maiores concentrações de terreiros de Candomblé e Umbanda do Sul do país.
Mas o que mais me encanta é ver como os terreiros sulinos desenvolveram características próprias. Existem terreiros que misturam elementos da tradição gaúcha com a ancestralidade africana de formas únicas. O respeito ao sagrado, a disciplina nas giras, a seriedade nos trabalhos — esses são traços que muitos visitantes de outros estados notam quando vêm ao Sul.
Desafios Contemporâneos
Ainda assim, os terreiros do Sul enfrentam desafios específicos. A intolerância religiosa persiste, muitas vezes disfarçada de preconceito velado. A criminalização da pobreza e a associação equivocada entre terreiros e práticas ilícitas ainda afetam comunidades, especialmente as periféricas. O frio, que pode parecer um detalhe, é um desafio real — giras no inverno gaúcho exigem preparação diferente, cuidados especiais com a saúde dos médiuns e frequentes.
Além disso, a urbanização acelerada de cidades como Curitiba e Florianópolis trouxe a questão do espaço. Terreiros que funcionavam em áreas mais afastadas agora se veem cercados por condomínios e shopping centers, gerando conflitos com vizinhos que não compreendem os toques de atabaque ou o movimento de pessoas durante as noites de gira.
A Importância de Contar Essa História
Como cartomante e filha de santo, acredito profundamente que conhecer nossa história é fortalecer nossas raízes. Os terreiros do Sul não são menos que os do nordeste. Eles são diferentes porque viveram realidades diferentes, porque absorveram influências diferentes, porque resistiram de formas diferentes. Cada terreiro que mantém suas portas abertas no Sul carrega em seu chão batido o suor de pretos velhos que vieram da Bahia, o choro de mães de santo que perderam filhos na ditadura, a alegria de crianças que hoje aprendem a dançar para Oxum sem vergonha de sua própria fé.
Quando você visita um terreiro no Sul, seja em Porto Alegre, em Joinville ou em qualquer cidade do interior, perceba os detalhes. A comida pode ter um toque diferente. A forma de receber pode ter uma formalidade típica da região. Os pontos cantados podem ecoar de maneira única entre as paredes de um templo que já viu nevar do lado de fora. Isso não é menos autêntico — é o axé se adaptando, sobrevivendo, florescendo.
Conclusão
A história dos terreiros no Sul é uma história de imigração, sim, mas também de resistência, adaptação e amor inabalável às nossas tradições. É a prova de que o axé não conhece fronteiras estaduais, que o chamado dos orixás se faz ouvir tanto no calor do Recife quanto no frio de Gramado. Como mãe de santo, sinto orgulho imenso de cada terreiro que mantém a chama acesa no Sul, de cada médium que incorpora apesar das dificuldades, de cada filho de santo que carrega seu collares com dignidade pelas ruas de Curitiba ou Porto Alegre.
Que esta história seja contada, celebrada e respeitada. E que os ventos de Iansã continuem levando nossa fé para todos os cantos deste Brasil tão vasto e tão nosso.
Axé! 🌿
Perguntas frequentes
Quando os primeiros terreiros surgiram no Sul do Brasil?
Os primeiros terreiros no Sul começaram a surgir no final do século XIX e início do século XX, com a chegada de migrantes de outras regiões do Brasil que trouxeram suas tradições religiosas afro-brasileiras para o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Por que a Umbanda se popularizou mais que o Candomblé no Sul?
A Umbanda ganhou mais espaço no Sul devido à sua maior flexibilidade de sincretização e por ser mais facilmente aceita em um contexto social conservador, onde práticas identificadas como 'africanas puras' enfrentavam maior preconceito.
Os terreiros do Sul são diferentes dos do nordeste?
Sim, os terreiros sulinos desenvolveram características próprias devido às influências da cultura gaúcha, do clima frio, da colonização europeia e dos desafios específicos de cada região, mantendo a essência afro-brasileira mas com identidade local.
Como foi a perseguição aos terreiros durante a ditadura militar no Sul?
Durante a ditadura, muitos terreiros sofreram invasões policiais, prisões de dirigentes e foram obrigados a funcionar de forma clandestina. A região Sul teve casos documentados de tortura e fechamento forçado de templos religiosos afro-brasileiros.
Quais os principais desafios dos terreiros no Sul atualmente?
Os principais desafios incluem a intolerância religiosa velada, a criminalização da pobreza, conflitos com vizinhos devido à urbanização acelerada, e as dificuldades climáticas do inverno rigoroso que exigem cuidados especiais durante as giras.

