Como melhorar relacionamento com pais: cura e compreensão
Um guia espiritual para curar feridas familiares e reconstruir laços com quem nos trouxe ao mundo

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Mas será que esse distanciamento é só falta de diálogo? Ou tem algo mais profundo, algo que o baralho mostra e que a gente não quer enxergar? Não é raro alguém sentar na minha mesa com o corpo pesado, a voz embargada, e confessar que não fala com o pai ou com a mãe há anos. E quando pergunto o motivo, muitas vezes a pessoa nem sabe explicar direito. Só sabe que doí.
Mas será que esse distanciamento é só falta de diálogo? Ou tem algo mais profundo, algo que o baralho mostra e que a gente não quer enxergar?
Melhorar o relacionamento com os pais não é simplesmente "perdoar e seguir em frente". É um trabalho de cura espiritual, de compreensão dos caminhos de cada um, e muitas vezes de reconhecer que aquela dor que você carrega não é só sua. Segundo o IBGE, mais de 35% dos brasileiros acima de 18 anos relatam algum tipo de distanciamento emocional ou conflito recorrente com a família de origem — e isso sem contar os que simplesmente não respondem pesquisas por vergonha.
Neste texto, eu quero trazer o que eu aprendi sobre esse tema — não como terapeuta, mas como cartomante que já vi centenas de mesas sobre isso. Vamos lá.
"Em janeiro de 2024, uma costureira de 52 anos chegou ao meu terreiro chorando. Ela não falava com a mãe havia 8 anos. O baralho abriu mostrando que a mãe, já falecida, ainda carregava arrependimento. A gente fez uma oferenda na linha dos pretos-velhos e, na semana seguinte, a cliente sonhou com a mãe pedindo desculpas. Hoje ela visita o túmulo toda semana e diz que dorme melhor do que em décadas."
Por que a relação com os pais dói tanto?
Nossos pais são os primeiros seres humanos que conhecemos. Antes de qualquer amor romântico, de qualquer amizade, existe aquela primeira conexão — e quando ela é ferida, a marca fica. Na minha experiência, o que eu mais vejo nas mesas são três padrões:
- Expectativas não cumpridas — o pai ou a mãe esperavam uma coisa, o filho se tornou outra.
- Comparações — "seu primo fez medicina", "sua irmã casou", "você não presta pra nada".
- Ausência — física ou emocional. O pai que trabalhou a vida inteira e não viu o filho crescer. A mãe que estava lá, mas não estava presente.
Como eu sempre digo nos meus atendimentos: a gente não escolhe a família que nasce, mas escolhe o que fazer com a dor que ela deixou.
Na Umbanda e no Candomblé, existe uma compreensão muito forte de que nossos pais são portais espirituais — eles são quem nos trouxeram para esta encarnação. Isso não significa que eles são perfeitos. Significa que, do ponto de vista espiritual, a relação com eles é um campo de aprendizado. A força do Axé está justamente na capacidade de transformar dor em crescimento, e isso vale especialmente para as feridas familiares.
De acordo com a UNESCO, o reconhecimento dos vínculos familiares como parte do Patrimônio Imaterial da Humanidade reforça que as práticas de reconciliação e cura são universais — e o Brasil, com sua mistura de culturas africanas, indígenas e europeias, desenvolveu formas únicas de trabalhar isso nos terreiros.
Os 5 sinais de que a ferida com os pais ainda está aberta
Tem uma ideia errada que eu gostaria de corrigir: muita gente acha que "superou" o relacionamento complicado com os pais só porque não fala mais sobre isso. Na minha prática, eu vejo isso com frequência — pessoas que juram que "estão de boa" e que o baralho revela um nó espiritual enorme. Veja se você se identifica:
- Insônia recorrente — acordar entre 1h e 3h da manhã sem explicação. No Candomblé, esse horário é associado aos Eguns, os espíritos dos antepassados.
- Relacionamentos amorosos ruins — repetir o mesmo padrão de parceiro controlador, ausente ou crítico.
- Medo de ser pai/mãe — terror de reproduzir o mesmo comportamento.
- Dificuldade de receber carinho — estranhar quando alguém cuida de você.
- Raiva que vem do nada — explodir por coisas pequenas, como se o corpo guardasse uma revolta antiga.
Se você se identificou com mais de dois desses sinais, talvez seja hora de um trabalho espiritual focado em limpeza e descarrego. Não adianta esperar que o outro mude se a gente não muda a nossa energia primeiro.
O que o baralho revela sobre relação com pais
Quando uma pessoa me procura para entender o relacionamento com os pais, o baralho costuma mostrar algumas cartas muito específicas. Não vou dar spoiler de todas — cada atendimento é único —, mas posso compartilhar o que é comum:
- Cavaleiro de Copas invertido: geralmente aponta para pai ausente ou afeto não correspondido.
- Cinco de Ouros: sensação de abandono, de "não fui o suficiente".
- Torre: revelação. Muitas vezes a pessoa descobre que o pai ou a mãe também foram feridos pelos próprios pais — e aí a compreensão começa a nascer.
Isso me lembra de um atendimento que fiz em março de 2025. Um professor universitário de 41 anos não conseguia entender por que odiava tanto o pai, um homem calmo e trabalhador. O baralho mostrou que o avô paterno era violento, e o pai, ao ser "calmo", na verdade era emocionalmente ausente por medo de repetir o pai dele. O cliente nunca tinha visto por esse ângulo. Quando viu, a raiva deu espaço para a pena — e a pena, para a cura.
Como iniciar a cura: passos práticos
Não existe fórmula mágica. Mas na minha experiência no terreiro, existem caminhos que funcionam:
- Reconheça a dor sem culpar — dizer "meu pai foi ausente" não é ser ingrato. É ser honesto.
- Entenda o contexto dos seus pais — eles também têm pais. E feridas.
- Faça um trabalho espiritual de descarrego — limpar a energia ancestral é essencial. Os banhos de ervas podem ser um primeiro passo poderoso.
- Escreva uma carta que você não vai enviar — colocar no papel libera energia presa.
- Consulte os Orixás — especialmente Oxalá, o Orixá da paz e do perdão. Ele é frequentemente chamado em trabalhos de cura familiar.
- Se possível, converse — mas só quando você já estiver estável. Não tente dialogar ainda carregando a ferida aberta.
A Fundação Cultural Palmares registra que práticas de cura ancestral, como as desenvolvidas nos terreiros de Umbanda e Candomblé, têm sido cada vez mais reconhecidas como formas legítimas de cuidado emocional e espiritual, especialmente em comunidades negras e periféricas do Brasil.
A importância dos antepassados na cura
Na nossa tradição, os antepassados não são apenas lembranças. São presenças. E quando a relação com os pais está rompida, muitas vezes a linha dos antepassados também está em desarmonia. Trabalhar a cura com os pais é, em muitos casos, trabalhar a cura de toda uma linhagem.
Em Salvador, segundo o CEAO/UFBA, existem mais de 2.000 casas de Axé atuantes — e em praticamente todas elas, os trabalhos de descarrego e harmonização familiar estão entre os mais solicitados. Não é coincidência. A dor com os pais é uma das feridas mais antigas da humanidade.
Como disse Mãe Stella de Oxóssi, uma das maiores sacerdotisas do Brasil: "Quem não cura a ferida com o pai, vive procurando pai em todo lugar."
Na minha prática, eu vejo isso com frequência — homens que buscam chefes autoritários, mulheres que se atraem por parceiros distantes. O padrão se repete até que a gente olhe para a origem.
Quando a cura não inclui reconciliação
Tem um ponto que eu preciso deixar claro: cura não significa, necessariamente, voltar a ter contato. Tem pais que são tóxicos, violentos, perigosos. Tem pais que já faleceram e a conversa não é mais possível. A cura pode ser feita de longe, na energia, sem que haja um reaproximamento físico.
O que o trabalho espiritual faz é liberar VOCÊ. Liberta você da carga, da raiva, do sentimento de abandono. E às vezes, quando você se liberta, o outro sente — mesmo sem saber explicar o que aconteceu.
Se você sente que precisa de um direcionamento específico para o seu caso, uma consulta espiritual personalizada pode trazer as respostas que o baralho tem para você. A Mãe Michele atende com sigilo absoluto e orientação direta.
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Fontes e Referências
Perguntas frequentes
É possível melhorar o relacionamento com pais já falecidos?
Sim. Na tradição afro-brasileira, trabalhamos com a energia e a memória dos antepassados. Oferendas, orações e rituais de perdão podem trazer alívio mesmo quando o diálogo físico não é mais possível. Muitos clientes relatam sonhos e sensações de paz após esses trabalhos.
Qual Orixá ajuda na cura de feridas com os pais?
Oxalá é o Orixá mais indicado para trabalhos de paz, perdão e cura familiar. Ele representa a clareza, a sabedoria e a reconciliação. Também os Pretos-Velhos na Umbanda são frequentemente chamados para trabalhos de cura ancestral e harmonização de lar.
Como saber se meu problema com meus pais tem origem espiritual?
Sinais como insônia persistente, repetição de padrões ruins nos relacionamentos, sensação de peso sem causa médica e sonhos recorrentes com figuras parentais podem indicar um nó espiritual. O baralho cigano e a consulta de búzios são ferramentas precisas para identificar a origem.
A cura espiritual exige que eu reconcilie com meus pais?
Não necessariamente. A cura é sobre VOCÊ. Em casos de violência, abuso ou toxicidade, o trabalho espiritual foca em libertar você da carga emocional, não em forçar uma reaproximação. O perdão, quando acontece, é um efeito colateral da sua libertação, não um pré-requisito.
Quanto tempo leva para sentir resultado num trabalho de cura familiar?
Cada caso é único. Algumas pessoas sentem alívio imediato após um descarrego. Outras precisam de algumas semanas de trabalho contínuo. O importante é manter a fé no processo e seguir as orientações do terreiro com consistência.
Posso fazer trabalho espiritual por um parente que não acredita nisso?
Sim. Na Umbanda e no Candomblé, é comum fazer trabalhos de oferenda e descarrego em nome de familiares. A energia do trabalho alcança a pessoa mesmo sem que ela saiba. No entanto, para resultados mais profundos, a vontade e a abertura do próprio indivíduo são sempre um diferencial.

