A Distribuição de Doces: Tradição e Significado Espiritual
Entenda o significado espiritual por trás da distribuição de doces nos terreiros e como essa tradição atrai energias positivas.

Você já parou para pensar por que, em pleno século XXI, milhares de crianças ainda correm pelas ruas do Brasil atrás de sacolinhas de doces? Por que nos terreiros de Umbanda e Candomblé a mesa de festa dos Erês transborda balas, bombons, cocadas e refrigerantes? E por que esse gesto tão aparentemente simples — dar um doce — ressoa com tanta força no nosso coração espiritual? Cada gesto, cada oferenda, cada detalhe carrega um significado que vai muito além do que os olhos conseguem ver. E foi em um dia 27 de setembro, ainda criança, acompanhando minha avó às festas de Cosme e Damião no terreiro, que eu entendi pela primeira vez que um simples doce podia ser tão poderoso.
Você já parou para pensar por que, em pleno século XXI, milhares de crianças ainda correm pelas ruas do Brasil atrás de sacolinhas de doces? Por que nos terreiros de Umbanda e Candomblé a mesa de festa dos Erês transborda balas, bombons, cocadas e refrigerantes? E por que esse gesto tão aparentemente simples — dar um doce — ressoa com tanta força no nosso coração espiritual?
A distribuição de doces não é apenas uma tradição folclórica. Ela é um ato sagrado de partilha, um portal de conexão entre o mundo material e o espiritual, e uma forma de honrar a energia pura, alegre e transformadora das crianças divinas. Segundo o IBGE, mais de 12 mil terreiros de Umbanda e Candomblé estão registrados em todo o Brasil, e em grande parte deles a festa dos Erês com distribuição de doces continua sendo um dos momentos mais esperados do ano — não só pelas crianças, mas por todos os frequentadores que entendem o poder simbólico desse gesto.
Por que um simples doce carrega tanta energia espiritual?
Na Umbanda e no Candomblé, o doce não é apenas comida. Ele é uma oferenda, um presente, um ato de amor que transcende o paladar. Quando entregamos um doce a uma criança — ou, espiritualmente, a um Erê — estamos oferecendo doçura, alegria, leveza e pureza. Estamos dizendo, com aquele gesto simples: "você é bem-vindo, você é amado, você é importante".
O doce, na tradição iorubá e nas religiões afro-brasileiras, representa a energia de Oxum, a Orixá das águas doces, do amor e da doçura. Oxum rege tudo que é doce, tudo que nutre com suavidade, tudo que transforma a amargura em alegria. Por isso, quando oferecemos doces aos Erês, estamos também honrando a energia de Oxum e pedindo que essa doçura se espalhe pela vida daqueles que recebem.
Na mitologia iorubá, os Ibejis — gêmeos divinos que foram sincretizados com São Cosme e São Damião no Brasil — são orixás crianças que trazem alegria, prosperidade e proteção. Eles são cultuados com oferendas de doces, brinquedos e comidas que representam a fartura e a celebração da vida. A distribuição de doces, portanto, não é um capricho: é um ato ritualístico de alinhamento com a energia infantil, pura e transformadora dessas entidades.
A tradição de distribuir doces também está profundamente ligada ao conceito de axé — a força vital que move o universo. No Candomblé, acredita-se que ao compartilhar alimentos, especialmente doces, estamos circulando axé positivo, fortalecendo os laços comunitários e atraindo bênçãos para o terreiro e para os devotos. Isso explica por que, mesmo nas comunidades mais simples, a festa dos Erês nunca deixa de ter doces em abundância — é uma forma de honrar a espiritualidade e garantir que o axé flua em abundância.
A origem da distribuição de doces: de São Cosme e Damião aos Erês
A história começa muito antes das ruas do Rio de Janeiro e das praças da Bahia. Os gêmeos São Cosme e São Damião eram médicos que viveram na Ásia Menor por volta do século III d.C. e ficaram conhecidos por atender os doentes sem cobrar nada — eram chamados de anárgiros, os "inimigos do dinheiro". Quando atendiam crianças, os santos gêmeos costumavam entregar doces e guloseimas para alegrar os pequenos pacientes. Esse gesto de carinho e generosidade foi preservado pela Igreja Católica e, posteriormente, trouxido para o Brasil pelos colonizadores portugueses já na década de 1530.
Mas a distribuição de doces ganhou uma dimensão espiritual completamente nova no Brasil graças ao sincretismo religioso. Durante a escravidão, os africanos trazidos para cá eram proibidos de cultuar seus orixás. Para manter suas tradições vivas, eles associaram os Ibejis — gêmeos divinos da mitologia iorubá — aos santos católicos Cosme e Damião. Assim, o que era uma festa católica se transformou em uma celebração afro-brasileira profundamente significativa.
Segundo o professor e babalaô Ivanir dos Santos, da UFRJ, "Cosme e Damião é uma data da igreja católica, mas as religiões de matriz africana fazem um diálogo com essa data. Isso tem a ver com o que chamamos de festa de erê, uma entidade que se manifesta em forma infantil, ou festa da ibejada. Festejar a criança, o erê, a ibejada, é festejar a alegria".
A UNESCO reconheceu as religiões afro-brasileiras como Patrimônio Imaterial da Humanidade em 2008, destacando justamente a importância de rituais como a festa dos Erês, que preservam a memória ancestral e fortalecem a identidade cultural de milhões de brasileiros. A distribuição de doces, nesse contexto, é muito mais que uma brincadeira: é um ato de resistência cultural, um gesto de preservação da memória africana no Brasil.
A festa nos terreiros: doces, alegria e transformação espiritual
Quando chega o dia 27 de setembro, os terreiros de Umbanda e Candomblé se transformam. As mesas são cobertas com pratos cheios de balas de goma, bombons, cocadas, pirulitos, bolachas e refrigerantes. Os Erês incorporam nos médiuns, e a alegria toma conta de todo o espaço. Crianças reais e espirituais se misturam, e por algumas horas o mundo parece mais leve, mais puro, mais esperançoso.
Eu me lembro de uma festa de Cosme e Damião no terreiro da Mãe Celeste, em Salvador, quando eu tinha uns quinze anos. A Mãe Celeste era uma baiana de gerações, filha de Nanã, e preparava os doces com as próprias mãos na madrugada do dia 27. "Doce de mão de santo tem axé", ela dizia, enquanto enrolava as cocadas. Naquela festa, uma menina de uns sete anos chegou sozinha, descalça, sem ninguém acompanhando. Ela não disse de onde veio, só sentou num canto e começou a comer os doces. Quando um Erê incorporou e foi brincar com ela, a criança começou a chorar de alegria. "Ela veio trazer uma mensagem", disse o Pai de Santo depois. "Os Erês chamaram ela." Ninguém soube de quem era a menina, e ela sumiu antes da festa acabar. Mas aquele dia ficou marcado no terreiro para sempre.
Esse tipo de história não é exceção. É a regra. Os Erês trabalham com a energia da pureza, da inocência e da verdade. Eles não têm filtros, não têm máscaras. Quando eles falam, falam o que precisa ser ouvido. Quando eles brincam, trazem alegria que cura. E quando eles recebem doces, estão recebendo o reconhecimento da comunidade de que a infância espiritual — aquela parte de nós que ainda acredita, que ainda sonha, que ainda espera — merece ser celebrada e nutrida.
O que a doçura representa na jornada espiritual
A doçura, no contexto da espiritualidade afro-brasileira, não é apenas um sabor. Ela é uma qualidade de energia, uma vibração que acalma, cura e harmoniza. Quando a vida fica amarga — e ela fica, para todos nós, em algum momento — a energia do doce é um lembrete de que existe doçura disponível, de que a alegria pode ser recuperada, de que a criança que existe dentro de cada um de nós ainda está viva.
Como me disse uma velha mãe de santo de Angola, que eu tive a honra de conhecer em uma roda de conversa no Ilê Axé Opô Afonjá: "O doce é o leite do orixá. Quando a gente dá doce, a gente está amamentando a alma." Essa frase nunca saiu da minha cabeça. Amamentar a alma. É exatamente isso que a distribuição de doces faz. Ela alimenta não só o corpo, mas o espírito. Ela lembra as pessoas de que são amadas, de que pertencem a uma comunidade, de que existe proteção e carinho disponível para quem precisa.
Na Umbanda, a festa dos Erês também é um momento de inclusão social. Muitos terreiros, como o Terreiro de Umbanda São Cosme e São Damião em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, usam a festa para fazer ações sociais — distribuem não apenas doces, mas também kits de higiene, roupas e alimentos para famílias carentes. "Tudo que a gente faz aqui, a gente procura sempre ter um lado social atrelado", explica a dirigente espiritual Ana Carolina Oliveira. "A gente também quer devolver à sociedade um pouco dessa energia e dessa bondade que a gente recebe da espiritualidade."
Essa dimensão social da festa é uma das heranças mais bonitas da religiosidade afro-brasileira. A distribuição de doces não se limita ao terreiro: ela se espalha pelas ruas, pelas praças, pelas portas de casa. No Rio de Janeiro, especialmente nos bairros do subúrbio, é comum ver adultos e crianças formando filas para receber as sacolinhas de doces. Cada saquinho entregue é um ato de fé, uma promessa cumprida, um pedido de proteção ou um agradecimento por graças alcançadas.
Os tipos de doces e seus significados na oferenda
Cada doce carrega uma energia específica. Na hora de preparar uma oferenda para os Erês ou para os Ibejis, os pais e mães de santo sabem que não é qualquer doce que serve — a escolha é intencional e ritualística.
As balas de goma e jujubas são associadas à elasticidade e à resiliência da infância, lembrando que a criança se adapta, se dobra, mas não quebra. Os bombons e chocolates representam a riqueza e a generosidade do axé, pois são oferendas mais elaboradas que demonstram investimento emocional e material. A cocada, típica do Nordeste brasileiro e herança da culinária africana, é uma conexão direta com os ancestrais, especialmente quando preparada com dendê — o azeite sagrado que representa a energia de Exú e que abre caminhos.
Os pirulitos e marshmallows, embora mais modernos, são aceitos pelos Erês porque representam a leveza e a inocência. O refrigerante, sempre oferecido em lata ou garrafa, simboliza a efervescência da alegria — bolhas que sobem, energia que transborda. Na Umbanda Omolocô, uma vertente que preserva fundamentos bantu, é comum oferecer também mingau de milho e canjica doce, alimentos que representam a fartura e a prosperidade da terra.
O importante, segundo a tradição, não é o valor do doce, mas a intenção com que ele é oferecido. Um doce feito com as próprias mãos carrega mais axé do que um presente caro comprado sem pensar. Por isso, muitas mães de santo ainda hoje acordam de madrugada para preparar os doces da festa — é um trabalho de amor, um ritual de dedicação.
A distribuição de doces como ato de comunhão e pertencimento
Quando uma criança recebe um doce na festa de Cosme e Damião, ela não está apenas ganhando um presente. Ela está sendo incluída em uma corrente espiritual que atravessa séculos. Ela está sendo tocada pela energia dos Ibejis, dos Erês, da comunidade do terreiro e de todos os ancestrais que, desde a África, mantiveram viva a tradição de honrar a infância como uma força divina.
A antropóloga Rute Goldani, em estudo sobre as festas de Cosme e Damião no Brasil, observou que a distribuição de doces funciona como um "ritual de passagem social": a criança que participa da festa ano após ano vai internalizando valores de comunidade, generosidade e conexão espiritual. Ela aprende, sem que ninguém precise explicar, que compartilhar é sagrado, que a alegria é contagiosa, e que a proteção dos orixás está disponível para quem chega com coração limpo.
Essa transmissão de valores é particularmente importante em um país onde, segundo dados da Fundação Cultural Palmares, mais de 1,7 milhão de pessoas se declaram praticantes de religiões afro-brasileiras. A festa dos Erês, com sua distribuição de doces, é uma das portas de entrada mais acessíveis para quem está começando a se aproximar da Umbanda ou do Candomblé. É difícil sentir medo ou estranhamento quando você está rindo, comendo doce e brincando com um ser espiritual que tem a cara de uma criança.
No Candomblé, a festa dos Ibejis é um momento tão importante que muitas casas iniciam os preparativos semanas antes. Os doces são escolhidos com cuidado, os brinquedos são benzidos, e o caruru é cozido em quantidade suficiente para alimentar toda a comunidade. A comida, na tradição iorubá, é uma forma de oração. Comer junto é rezar junto. E quando o caruru é compartilhado entre todos — crianças, adultos, idosos, santos e visitantes — está se renovando o pacto de pertencimento que mantém o terreiro unido.
A lição que os doces nos ensinam sobre espiritualidade
Tem uma ideia errada que eu gostaria de corrigir. Muita gente pensa que espiritualidade precisa ser séria, pesada, cheia de regras e sacrifícios. Que quanto mais sofrido, mais santo. Mas a festa dos Erês, com seus doces, suas risadas e sua bagunça, vem para lembrar o contrário: espiritualidade também é alegria. Também é leveza. Também é a capacidade de se maravilhar com um simples doce, de correr descalço pela grama, de acreditar que o mundo pode ser bom.
Os Erês não se aproximam de quem está carregando o peso do mundo nos ombros. Eles vêm para quem está disposto a soltar, a brincar, a rir. E quando a gente distribui doces, a gente está literalmente adoçando o ambiente — criando uma vibração tão gostosa que os espíritos não conseguem resistir. É por isso que, em muitos terreiros, a festa dos Erês é usada como momento de limpeza espiritual: antes de rituais mais sérios, antes de consultas importantes, antes de trabalhos de passagem, os médiuns e os frequentadores participam da festa para "baixar a energia", para se tornarem receptivos, para lembrar que a proteção divina também se manifesta através da alegria.
Na minha prática como cartomante e Mãe de Santo, eu vejo isso com frequência. Pessoas que chegam desesperadas, angustiadas, com a vida toda embaraçada. E quando eu sugiro uma oferenda aos Erês, às vezes elas estranham: "Mas é só doce?" Só doce. Só alegria. Só leveza. E, curiosamente, é exatamente isso que falta na vida delas. A resposta nunca está no complexo. A resposta, muitas vezes, está na simplicidade que a gente deixou de lado porque achou que não era "sério o suficiente".
A distribuição de doces nos terreiros e nas ruas do Brasil é muito mais que tradição. É medicina espiritual. É resistência cultural. É um ato de amor que atravessa gerações, conectando a África ancestral às crianças que hoje correm pelas calçadas do subúrbio carioca com sacolinhas de balas na mão. É um lembrete de que a alegria é sagrada, que a infância é divina, e que, por mais difícil que a vida seja, sempre existe doçura disponível para quem sabe pedir — e para quem sabe dar.
Como eu sempre digo nos meus atendimentos: quando a alma está amarga, não adianta forçar remédio amargo. Dá um doce primeiro. Deixa a alegria entrar. Deixa o Erê brincar. O resto a gente resolve depois.
Oni Beijada! 🍬
Veja também:
- Quem são os Erês na Umbanda: pureza e poder infantil
- Oferendas para Erês: doces, brinquedos e rituais de alegria
- Cosme e Damião: os gêmeos médicos e mártires da Igreja
- O sincretismo dos Erês com São Cosme e São Damião
- Caruru de Cosme e Damião: a comida sagrada dos gêmeos
- Ibejis/Erês: as crianças divinas e o sincretismo com Cosme e Damião
Fontes e Referências
Perguntas frequentes
Qual é a origem da distribuição de doces no dia de Cosme e Damião?
A tradição vem dos santos gêmeos Cosme e Damião, médicos do século III que atendiam crianças doentes e lhes davam doces para alegrar. No Brasil, essa prática se fundiu com o culto aos Ibejis (gêmeos divinos iorubás) através do sincretismo religioso, transformando a distribuição de doces em um ato sagrado de partilha e conexão espiritual nos terreiros de Umbanda e Candomblé.
Por que os Erês gostam de doces e guloseimas?
Os Erês são entidades que manifestam a energia pura, alegre e inocente da infância. Os doces representam doçura, leveza e alegria — qualidades que ressoam com a essência desses seres espirituais. Além disso, o doce está associado à energia de Oxum, a Orixá das águas doces, e simboliza o axé positivo que circula quando há generosidade e partilha.
O que representa o doce na espiritualidade afro-brasileira?
Na espiritualidade afro-brasileira, o doce não é apenas comida — é uma oferenda sagrada que simboliza alegria, pureza, prosperidade e conexão com o divino. Distribuir doces é um ato de circulação de axé positivo, fortalecimento de laços comunitários e honra à energia infantil e transformadora dos Erês e Ibejis.
Quando acontece a festa de Cosme e Damião nos terreiros?
A festa de Cosme e Damião é celebrada tradicionalmente no dia 27 de setembro, data em que a Igreja Católica comemora os santos gêmeos. Nos terreiros de Umbanda e Candomblé, essa data é dedicada aos Erês e Ibejis, com distribuição de doces, brinquedos, comidas típicas como o caruru, e muita alegria. Algumas casas estendem as celebrações por toda a semana.
Quais doces são mais oferecidos aos Erês?
Os doces mais comuns nas oferendas aos Erês incluem balas de goma, jujubas, bombons, chocolates, cocadas, pirulitos, marshmallows e refrigerantes. Cada doce carrega um significado: as balas representam resiliência, o chocolate a generosidade do axé, a cocada a conexão com os ancestrais africanos, e o refrigerante a efervescência da alegria. O mais importante é a intenção com que o doce é oferecido.
Como fazer uma oferenda de doces aos Ibejis em casa?
Para fazer uma oferenda simples aos Ibejis em casa, prepare um prato com doces variados em número ímpar (3, 5, 7 ou 9), coloque junto uma vela rosa e outra azul, e ofereça em um local limpo e arejado — pode ser um parquinho, um jardim ou um canto da casa dedicado à espiritualidade. Faça seu pedido com fé e alegria, e, quando atendido, retorne com uma nova oferenda para agradecer. Sempre consulte um Pai ou Mãe de Santo para orientação específica.

